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domingo, 8 de junho de 2008

Eu sou o chefe, logo existo

Vivemos hoje (?) sob a síndrome da omnipotência do chefe, dos postulados das lideranças heróicas e messiânicas. Seria bom inverter o prisma. E considerar que o faz o chefe existir são os seus 'subordinados'. O novo modelo de gestão pode ser a experiência traumática dos chefes que pensam que existem por serem chefes.


Post de José Matias Alves in Blog terrear

Estudos e falácias

Ou estou redondamente enganado ou esta notícia do Educare é falsa na parte em destaque (porque nada no estudo permite chegar ao 'modelo português') - refira-se, a propósito que divulguei esse estudo -e muitos outros - há mais de um ano:

"(...) Cresce a importância dada aos processos de avaliação do desempenho docente nos sistemas educativos da América e da Europa como instrumento para promover a qualidade do ensino. Mas esta não é uma tendência comum a todos os países. Muitos estão a optar por sistemas de auto-avaliação interna em cada escola. "Uma estratégia mais eficaz para alcançar a melhoria do desempenho docente", reconhecem os autores do estudo "Avaliação do Desempenho e Carreira Profissional Docente", coordenado por Javier Murillo na UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. Um trabalho de análise comparada entre 55 sistemas educativos da América e Europa, com foco na carreira dos docentes do Ensino Básico do sector público, que foi editado em Junho de 2007 e serviu de base à elaboração do modelo de avaliação docente que está a ser implementado pelo Ministério da Educação, em Portugal. (...)

Adenda: aliás só pode ser incorrecta a referência. Se o estudo foi editado em Junho de 2007, o sistema de avaliação português foi publicado em Janeiro de 2007. Mas não foi: o estudo foi editado em 2006, mas nem por isso legitima a afirmação. No link interno pode encontrar todas as referências.


Post de José Matias Alves in Blog terrear

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Traumas da treta e falta de verdade

Eu gostava que algum entendido, especialista nestas matérias dos traumas me explicasse como é que o ser humano cresce, se desenvolve se não passar por situações diversificadas que ponham à prova o seu sistema neurológico, emocional, etc.! Ninguém está a defender que se atirem os jovens às feras! Continua é a utilizar-se um conjunto de chavões, que muitos pais gostam de ouvir, para tornar as crianças cada vez mais indefesas, cada vez mais temerosas, cada vez menos corajosas, cada vez menos preparadas para a vida.

Quando estes jovens saem da escola e vão para o mundo do trabalho, quem é que os defende dos traumas dos patrões, dos traumas dos colegas maliciosos, invejosos, vingativos, etc.?

JMatias


Comentário

Por que razão o ME anda a tapar o Sol com uma peneira? Por que razão não diz que as políticas educativas tomadas ao longo dos últimos três anos têm como objectivo principal a redução da despesa com os salários dos professores? Se dissessem a verdade, os professores não se sentiriam tão enganados e abandonados. Digam, por favor, que o novo ECD, a criação das duas categorias de professor, as quotas, o modelo burocrático de avaliação de desempenho e o modo como foram criadas as AEC obedeceram ao único critério da redução da despesa. E digam também que a intenção de fundir o 1º CEB e o 2º CEB, criando o professor generalista para os 6 anos de escolaridade, tem a mesma intenção. Se não é assim, por que razão o Governo deixou que a Madeira e os Açores, aprovassem um ECD sem quotas e com uma única categoria de professor? Não foi apenas por serem poucos os professores da Madeira e dos Açores?

O critério da redução da despesa com os salários dos professores está presente desde o primeiro dia deste Governo. O relatório sobre a reestruturação do ECD que a ministra da educação pediu ao seu colega e mentor académico do ISCTE, João Freire, di-lo claramente. Por que será que esse relatório só existe em papel? Eu tenho um exemplar em papel. O ME faria bem em digitalizar esse relatório e colocá-lo na Internet para que a verdade seja reposta.

Post de Ramiro Marques, in http://ramiromarques.blogspot.com/

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Do Tempo em que (não) vivemos

Um texto que gostaria de ter escrito (Vergílio Ferreira, Pensar, Lisboa, Bertrand, 1992):

Este é o tempo do insólito, do vigário, do capricho, da mentira, da falsificação, do cheque sem cobertura, da banha-de-cobra. Não temos um estalão para nada, a própria Terra não garante a estabilidade do metro, o sistema de pesos e medidas é duvidoso que funcione, tudo existe apenas em função de si e não de qualquer outra coisa que lhe confira validade. Hoje tudo é possível porque nada é possíve. Hoje a verdade não se demora até ser mentira mas uma e outra se convertem mutuamente e são ambas válidas na sua mútua referência, sendo a mentira verdade e ao contrário. Hoje é o tempo dos aventureiros, do medíocre sagaz, da esperteza, que é a inteligência da astúcia. Hoje é o tempo do curandeiro, do endireita, do bruxo, do vidente, do profeta, do prestidigitador. Hoje é o tempo de se ser estúpido porque o inteligente não há razão para não ser mais estúpido do que ele. Hoje é o tempo de todos os caminhos estarem desimpedidos porque não é possível um sistema alfandegário. Hoje é o tempo de todos os contrabandos porque não há razão para um sistema fiscal. Hoje é o tempo da noite para todos os gatos terem a mesma identidade. Hoje é o tempo de tudo ser o tempo de. Hoje é o tempo de tudo, portanto de nada. Hoje é o tempo de se não ser. Levanta em ti, se puderes, o que te resta de homem, para seres alguma coisa.


in Blog terrear, post de José Matias Alves

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Texto sobre novo decreto da gestão das escolas

Do Blog terrear, do colega José Matias Alves, profundo conhecedor destas coisas da Educação (políticas educativas e administração educacional) e membro do novíssimo Conselho Científico para a Avaliação de Professores (CCAP), publicamos o início de um seu recente post:


Publicado o novo regime de "autonomia" e gestão, DL 75/2008 de 22 de Abril. Digamos, uma vez mais, que não é a mudança da morfologia que vai trazer grandes mudanças. Mas sobre esta matéria há aqui numerosas entradas e análises na categoria "115" e "gestão".

Interessante a retórica do ME que faz o anúncio desta medida (sendo instrutivo analisar por exemplo o parecer oportunamente dado pelo Conselho Nacional de Educação que pouco impacto teve nesta versão adoptada - consultar aqui) - e só uma ideologia pouco sustentada e a teoria da hipocrisia podem explicar algumas sequências (...)

Ler o resto AQUI

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Dez Teses para compreender o que se (não) passa

1. A mudança não se decreta (Crozier demonstrou-o já na década de 60). Que ilações temos então de tirar?

2. A racionalidade é limitada (Herbert Simon dixit, há já muito tempo). Impossível prever todas as situações e problemas e decretar a solução universal. Neste último ano há numerosas evidências da ignorância e da persistência deste mito.

3. A realidade é complexa, heterogénea, caótica. Logo, as soluções de tamanho único são um desastre. J Formosinho demonstrou-o há mais de 20 anos.

4. A mudança é um processo errático, não linear e que tem de considerar as razões, os sentimentos e as emoções. Quer quando se pensa e decide ao nível macro, como ao nível micro.

5. A realidade é (em certa medida) o que pensamos dela. Dizem os poetas, com destaque para Fernando Pessoa. Mas isto tem implicações que podem ser catastróficas: a cegueira, a surdez, a temosia e a obsessão podem levar-nos ao abismo.

6. A escola (o modelo escolar) herdou toda uma 'tecnologia' da 1ª revolução industrial. A sua gramática (na organização dos saberes, na gestão dos espaços e dos tempos, na constituição de turmas e de turnos) mantém-se inalterada. Parte da sua ineficácia reside neste desfasamento. O que temos vindo a fazer é remendar um pano sem conserto.

7. Do professor tecem-se as mais desencontradas percepções: desde o manga de alpaca cuja principal missão é guardar as crianças (e este foi um erro capital que se materializou em diversas medidas e foi - o que é mais grave - geralmente aceite), até ao profissional que sabe o que faz, por que o faz e que preza a sua autonomia, a sua capacidade de decisão, e que não está sempre à espera que o ME lhe diga o que tem de fazer. O que pode ser grave (se esta hipótese for credível) é que os mangas de alpaca cresçam.

8. A desconfiança é a matriz da acção pessoal e organizacional. Por muitas razões (e sentimentos). Porque a escola é o lugar dos desencontros, porque a intriga e a inveja, porque o medo do outro destruir a auto-estima. E no fundo porque o modelo escolar sempre separou as pessoas, sempre as desencontrou para melhor as dominar. E sem espaços e tempos para o encontro não é possível construir lentamente a confiança.

9. A autonomia vem sendo uma ficção. Ninguém a quer. O ME porque se mantém refém da ideia de que o Diário da República (ou mesmos os comunicados sem data e assinatura, ou até os memorandos das reuniões) é o regulador por excelência da acção educativa. E pensa que o poder está aí. Não está. As escolas e os professores (enuncio uma tese geral, sabendo que há excepções) também preferem a vida nesta ilusão. O ME que decida, que mande. Nós cumprimos. Se os resultados forem maus a responsabilidade é de quem decidiu. Nesta Babel, neste jogo de faz de conta, neste labirinto todos perdemos, todos nos enganamos. O medo de existir, de errar, de aprender com o erro. O medo da liberdade. A ilusão da igualdade.

10. A demissão geral da sociedade em torno da exigência educativa. Todos se demitem: os pais depositam os filhos na escola; os empregadores continuam a preferir a mão de obra barata; o próprio Estado não recruta os jovens diplomados por causa do défice e de uma vaga ideia que o mercado é salvação universal. O saber não tem valor. Bastam os diplomas.


Post roubado ao Blog terrear, de José Matias Alves

sexta-feira, 7 de março de 2008

Avaliação do desempenho de professores - Perguntas e respostas

O Ministério disponibiliza no seu sítio perguntas e respectivas respostas. As perguntas são estas:

1.Porque é importante avaliar os professores?
2.Como era o anterior sistema de avaliação?
3.Porque é que se alterou o sistema de avaliação sem ele ter sido avaliado?
4.Quem avalia os professores?
5.O que se avalia no desempenho dos docentes?
6.Como se faz a avaliação?
7.Qem define os objectivos?
8.Que objectivos são considerados?
9.Quantos instrumentos de avaliação existem? É um processo muito burocrático?
10.Porque não se simplifica o processo de avaliação?
11.Quem elabora os instrumentos de avaliação? Quem controla a qualidade das fichas?
12.Porque é que este modelo de avaliação prevê a observação de aulas?
13.Que critérios devem ser considerados na observação das aulas?
14.Há intervenção exterior à escola no processo de avaliação dos professores?
15.Qual a participação dos pais e dos encarregados de educação na avaliação dos professores?
16.Qual a duração do processo de avaliação?
17.Quando começa a primeira avaliação de professores? E quando terá de estar terminada?
18.Faz sentido falar em adiamento do processo de avaliação?
19.Há tempo e capacidade para todos os professores serem avaliados?
20.E os professores e as escolas estão preparados para avaliar?
21.Como pode um professor avaliar um outro que não seja da mesma disciplina?
22.Porque é que os resultados escolares dos alunos são tidos em conta na avaliação dos professores?
23.Como se mede o progresso dos resultados escolares?
24.Considerar o progresso dos alunos vai inflacionar as notas?
25.Qual o peso da progressão dos resultados dos alunos na avaliação dos professores?
26.Ao contabilizar os resultados escolares, os professores de escolas em territórios socialmente desfavorecidos não serão prejudicados?
27.Há dimensões subjectivas na avaliação de desempenho? Por exemplo, como medir “disponibilidade” do docente?
28.Porque existem quotas? Qual a necessidade de definir percentagens máximas para a atribuição de Muito Bom e Excelente?
29.Não deveria o processo de avaliação ser experimentado antes de ser aplicado?
30.Porque é que o Ministério da Educação não negociou com os professores?
31.Se durante estes dois anos forem encontrados problemas no processo de avaliação, o que será feito para corrigir essas situações?
32.Um professor que falte não pode ser considerado excelente? É prejudicado na sua carreira se faltar?

São 32 as perguntas. São 32 as respostas. Cheias de certezas como convém ao discurso oficial. Preferiria outras respostas mais próximas da verdade, da complexidade e das realidades muito heterogéneas. Por exemplo, afirmar sem hesitar que os avaliadores têm tempo e capacidade para avaliar é uma generalização abusiva. Por isso, não verdadeira. Responder que estão preparados, os professores e as escolas, para realizarem este complexo processo porque têm experiência de avaliação de alunos é confundir questões distintas e ignorar o que se passa em muitos contextos. (...)


in Blog terrear, de José Matias Alves (membro do Conselho Científico de Avaliação de Professores) - ler post completo AQUI