Mostrar mensagens com a etiqueta Luís Costa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Luís Costa. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 23 de maio de 2008

A Lua de Madalena

Às exploradas, maltratadas e mal-amadas professoras do meu país

Ainda a noite vai plena
Na celeste imensidão
E lá vai a Madalena
De pasta negra na mão

Leva nos lábios o sol
Ao acordar da manhã
E nos olhos de avelã
Sorriso de girassol

Madalena é professora
Ela ama a profissão

E lá vai a Madalena
Para a escola milagrar
Tem uma larga centena
De centelhas a avivar

Aninha sob o seu manto
Uma secreta ilusão
No imaginoso encanto
De um canto de Gedeão

Madalena é professora
Ela ama a profissão

E Madalena contrasta
Com o resto da multidão
Leva um ventre na pasta
Já gasta na sua mão

Uma réstia de esperança
Que o seu génio pintou
No sonho de uma criança
Que a criança nem sonhou

Madalena é professora
Ela ama a profissão

À tarde vem Madalena
Macerada e insegura
Traz máscara de tristura
No rosto estanhado em pena

Sombrio momo da alma
O belo corpo curvado
A passo descompassado
É grito na tarde calma.

Madalena é professora
Ela ama a profissão

E Madalena lá vai
Dolente e amargurada
Na lenta noite que cai
Na sua vida arrastada

Para casa lá vai ela
De pasta preta na mão
Dar-se mãe fazer-se bela
Donzela de servidão

Madalena é professora
Ela ama a profissão

E quando a lua dormente
Vai vagueando no vão
No trilho do ferro quente
Ela relê diligente
Os versos de Gedeão
E em cada peça passada
Que passa maquinalmente
Vai passando lentamente
A sua alma engelhada

Madalena é professora
Ela ama a profissão

Luís Costa - Blog Dardomeu

domingo, 11 de maio de 2008

Ser Condor


Quando a ventania te fustiga
E a voz do trovão te abalroa;
Quando as vagas te batem na proa
E a tempestade não se mitiga,
Porque temes a fúria inimiga,
Porque te encolhes, professor,
Se possuis nas nervuras da mão
A força bruta de um tufão?

Quando vês a seara ameaçada
Pela pulha praga predadora,
E a tua lide geradora
Se agiganta multiplicada,
Porque choras na eira estragada
Porque te conformas, professor,
Se possuis nas nervuras da mão
A energia que brota do chão?

Quando o labor do teu longo dia
Se confunde com a noite escura,
E a cava voz da conjuntura
Te acusa de ócio e de abulia,
Porque atrofias a rebeldia,
Porque consentes, ó professor,
Se possuis nas nervuras da mão
A seiva da nova geração!

Tu, que trazes cavadas no peito
As fundas chagas da humilhação,
Porque aceitas essa condição?
Porque choras o trilho desfeito
E te anulas num nicho sem preito?
Porque te curvas, ó professor,
Se possuis nas nervuras da mão
O tal respeito que te não dão?

Porque receias, ó professor,
Ser livre e voar como um condor?


Luís Costa - in Blog Dardomeu