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quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Mais uma opinião importante sobre Avaliação dos Docentes

Voltando à vaca fria


Hoje estive à conversa com uma amiga e militante do PS. A avaliação dos professores foi o prato forte. Ela a favor, eu contra. De um lado a retórica oficial do PS, do outro um militante desalinhado.

Claro que sou suspeito, fui professor do secundário durante mais de uma década e sou formador de professores há mais de duas. Para além disso sou sindicalizado e fui fundador do sindicato onde sou filiado. Tudo graves predicados que não abonam a favor de um crítico do processo de avaliação do desempenho dos professores e militante do PS.

Tenho, no entanto, um argumento moral, a experiência prática de avaliar centenas de candidatos a professores e de professores no activo. Acho que sei alguma coisa do assunto, não só teoria, mas também de experiência vivida.

Acresce que não sou directamente interessado no assunto, pois não estou em causa enquanto avaliado, o que me reconforta para poder ter uma posição independente da defendida oficialmente pelo partido onde milito.

Tudo visto e somado, por que haveria eu de ter a posição que tenho se não fosse por convicção e por esta decorrer de uma análise fundamentada da realidade portuguesa?

Claro que não sou contra a avaliação dos professores, pelo contrário, acho-a indispensável. Quando ainda pouco se falava do assunto orientei mesmo seminários sobre a matéria, numa perspectiva de sensibilização, mas a forma como o processo se desenrolou tornou-o quase inviável.

Ninguém no seu perfeito juízo pode pensar em generalizar um processo destes passando uma esponja sobre o passado, pois por muito que a propaganda o queira esconder, já havia avaliação de professores e se o processo não era o melhor a culpa não foi dos avaliados, mas dos decisores políticos.

Para além disto, o processo foi inteiramente concebido por técnicos do ME sem intervenção de especialistas com currículo reconhecido na matéria e sem qualquer discussão digna desse nome com as associações e sindicatos que representam os professores.

Depois, ignorou-se a realização de qualquer prática experimental que contribuísse para aferir os instrumentos e aperfeiçoar todo o processo.

Finalmente, matou-se a sua credibilidade, antes mesmo deste estar em prática, ao ter-se feito um concurso para titulares, cuja arbitrariedade técnica e ausência de escrúpulos éticos ao nível da concepção e da aplicação, o tornaram num aborto em que ninguém se revê, à excepção de quem o concebeu e de quem julga poder tirar algum partido da sua existência.

É por tudo isto que se chegou ao ponto em que estamos e, verdadeiramente, ninguém
sabe como se há-de sair deste atasqueiro.

Perdoem-me a insistência, mas a única saída airosa era a substituição da equipa do ME por uma mais fresca e isenta de culpas neste cartório, capaz de ganhar a confiança da classe docente e de conseguir um entendimento com ela, sem vencedores nem vencidos, consensualizando uma solução transitória e fazendo caminho para pôr de pé um processo de avaliação mais consentâneo com as metodologias internacionalmente mais vulgarizadas e com a realidade das escolas portuguesas. E, claro, reformulando a questão dos titulares.

Pacificavam-se as escolas e o PS reconquistava uma parte do eleitorado que alienou, ou vai alienar, se este braço-de-ferro continuar.

Sinceramente, ninguém consegue fazer chegar esta mensagem ao Primeiro Ministro? A minha teoria é que ele anda enganado por assessores e pela equipa do ME, porque o homem é determinado (alguns dizem teimoso) e um bocado arrogante, mas não é parvo nem quer perder a maioria absoluta.



in Campo lavrado - post do Doutor José Manuel Silva

domingo, 18 de janeiro de 2009

Avaliação simplificada e gratificações de gestão

Jacques Monod escreveu, já há muitos anos, um livro brilhante sobre a evolução biológica intitulado "O acaso e a necessidade" que, em termos muito simples, procura demonstrar que foram o acaso, nuns casos, e a necessidade de adaptação às condições do meio, noutros, que determinaram a evolução das espécies.

Lembrei-me disto a propósito da publicação simultânea, com data de 5 de Janeiro, dos decretos regulamentares que estabelecem, respectivamente, os princípios da avaliação simplificada e as gratificações de gestão dos novos directores.
Acaso ou necessidade?

É que nos entretantos da batalha que se avizinha, deixar uns milhares de candidatos a directores e subdirectores a pensar que podem vir a ganhar mais umas centenas de euros - de 600 a 750 para directores e de 310 a 400 para subs - é mais uma medida de acalmia no mar encapelado onde voga a educação.

Dir-se-á que os professores, ou alguns, não se deixam comprar. Mas não é disso que se trata, apenas de reconhecer que para ter bons gestores é preciso pagar-lhes melhor e as gratificações agora aprovadas constituem um bom incentivo. Nada que se compare à banca, é certo, mas...

O novo ano avizinha-se prenhe de desafios e como se diz nos casinos "os dados estão lançados... façam os vossos jogos".

in Campo lavrado - post de José Manuel Silva

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Carta aberta a Sua Excelência a Sr.ª Ministra da Educação

Com a devida vénia transcrevo a carta de um colega devidamente identificado. Curto e duro, mas melhora o humor, como diria o meu tio Juvenal.

Ílhavo, 24 de Março de 2008

Segunda carta aberta à Sra Ministra da Educação

Senhora Ministra da Educação

Excelência:

Há dias, uma jornalista tentava relacionar o acontecido na Escola Carolina Michaelis (se fosse viva morreria de vergonha…) com o Estatuto do Aluno e V. Ex.cia perguntava-lhe se o facto de haver um Código da Estrada impedia que houvesse acidentes de automóvel. A jornalista não lhe respondeu mas vou responder-lhe eu.

1. É evidente que o Código da Estrada não impede os acidentes de automóvel se os instruendos puderem faltar às aulas desse código e se no fim obtiverem a carta sem esforço.
É evidente que não impede se os instruendos puderem faltar ao respeito ao instrutor porque no fim ele vai ter de o aprovar para não prejudicar as estatísticas.

2. V. Ex.cia é muito esperta mas parece não ter a inteligência suficiente para se aperceber da situação incontrolável que criou desrespeitando, humilhando e atirando para cima dos professores as culpas de tudo o que está mal nas escolas.
Mais uma vez V. Ex.cia não tem uma palavra para dizer aos alunos e suas famílias como parte interessada no problema. A culpa, segundo o governo, é sempre dos professores e todos os outros estão inocentes e imaculados. V. Ex.cia continua a dar carapau a um chefe de cozinha e a exigir-lhe que prepare lagosta suada para o jantar. E percebe-se facilmente porquê: porque o que interessa é desmoralizar os professores e diminuí-los aos olhos do povo para depois se lhes poder pagar pouco e não permitir que progridam na carreira. “Não merecem!, Não fazem nada!, Nem os nossos filhos conseguem educar!”

3. “Força, Ministra!”, continue a desculpar despudoradamente os alunos e as suas famílias e estará a criar uma geração que, para além de ignorante, não respeitará ninguém no autocarro, na rua, no trabalho, em casa.
“Força, Ministra!”, continue a hostilizar os professores se acha que foi desmoralizando os seus soldados que os generais ganharam batalhas.
“Força, Ministra!”, continue surda aos gritos de “a velha vai cair, altamente!” e, em breve, as salas de aula passarão do circo actual para coliseus onde os professores serão imolados para gáudio de alguns adolescentes imbelicizados por telenovelas e publicidade idiotas.

“Força, Ministra!”, continue a dizer que a Oposição está a fazer aproveitamento político da situação e um dia estará mais só e indefesa do que a Professora de Francês mas nesse dia não conte comigo para lhe estender a mão.

Neste momento V. Ex.cia lembra-me um pastor perdido na serra a quem as ovelhas há muito não respeitam. A seu lado só tem os cães mas esses não fazem parte do rebanho…

Grato pela atenção



Domingos Freire Cardoso
Rua José António Vidal, nº 25 C
3830 - 203 ÍLHAVO
Tel. 234 185 375
E-mail: dfcardos@gmail.com

Post roubado ao Blog Campo lavrado, de José Manuel Silva.

terça-feira, 11 de março de 2008

José Manuel Silva contra os "professoricidas"

A palavra custa a dizer, é um neologismo, mas deve-me assistir o direito de a utilizar para significar o autêntico "assassinato do professor" que alguns comentadores da nossa praça andam por aí a fazer.
Apesar da tarimba das misérias humanas ainda me surpreendo com a atitude abjecta de alguns escribas de serviço que têm tentado a todo o custo proceder a uma assassinato de carácter de toda a classe dos professores, especialmente aos que usando o direito cívico à indignação, tão oportunamente invocado já lá vão muitos anos por Mário Soares, e o direito constitucional ao protesto e à manifestação, têm afirmado nas escolas, nas ruas e nos órgãos de comunicação social a sua discordância face às políticas do Governo para o sector educativo.
As ervas daninhas da Inquisição, da delação, da polícia política, dos bufos e quejandos não foram completamente extirpadas e germinam com furor sempre que surge ocasião favorável. Travestidos de "opinion makers" andam por aí uns abencerragens que se julgam detentores da pedra filosofal e que regurgitam em palavras de hoje o lastro da pior tradição autoritária e repressiva ao invectivarem os professores por se manifestarem, chegando ao ponto de colocarem em dúvida a sua dignidade pessoal e profissional como educadores, apenas por não abdicarem dos seus direitos e da sua cidadania activa.
É a vida, e para os professores, habituados a alunos difíceis e alguns mal educados, é apenas mais uma oportunidade para com serenidade e sentido de serviço demonstrarem a essa gentalha de que lado está a razão.