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domingo, 25 de maio de 2008

Prova de aferição de Português do 6º ano ao nível do 4º ano

A prova de aferição de Língua Portuguesa do 6º ano começa com um anúncio de um cão. No texto, lê-se: "Vendo cachorro". A primeira pergunta é: "qual é a intenção de quem colocou o anúncio?" Edviges Ferreira, vice-presidente da Associação de Professores de Português afirmou que a prova foi tão simples que podia ser feita por um aluno do 4º ano.

A prova de aferição de Língua Portuguesa inclui quase só questões de escolha múltipla. Os alunos pouco têm de escrever e pouco lhes é exigido ao nível da interpretação de textos.

Ano após ano, as provas de aferição vão sendo cada vez mais fáceis. De pouco ou nada servem para testar o desempenho dos alunos. Os seus efeitos são irrelevantes. Dão imenso trabalho. Não se justifica o seu carácter universal. Talvez fosse preferível que as provas de aferição se realizassem com uma amostra representativa da população escolar dos 4º e 6º anos.


Post de Ramiro Marques in http://ramiromarques.blogspot.com/ (sublinhados nossos)

sábado, 24 de maio de 2008

Avaliação das Provas de Aferição pela SPM

A Sociedade Portuguesa de Matemática publicou um interessante parecer sobre as provas de aferição de Matemática de 4º e 6º Anos - ler aqui.

Para aguçar o apetite, uma pequena amostra:

As Provas de Aferição que hoje decorreram por todo o país constituíram, para muitos alunos, um primeiro contacto com um teste nacional, externo e normalizado. É bom que os jovens se habituem a ser testados com rigor pelo que sabem.

Infelizmente, no entanto, uma série de circunstâncias fazem com que estas provas fiquem aquém do necessário. Primeiramente, os resultados não têm efeito sobre as classificações dos alunos, ou têm-no apenas se os professores e as escolas o entenderem — por isso há sempre um factor de desinteresse associado às provas. Em segundo lugar, estes testes não têm sido construídos de forma comparável de ano para ano, pelo que não se sabe o que de facto representam os resultados globais em termos evolutivos. Não se sabe sequer o que representam as classificações obtidas pelos alunos. O ministério estabelece uma grelha de classificação, mas depois a transformação dos resultados de aplicação da grelha em classificações finais dos alunos tem sido feita com critérios que o ministério não divulga. Significa tudo isto que não se sabe de facto o que representam os resultados das provas.

Além destas limitações, as Provas de Aferição têm tido dois problemas. Em primeiro lugar, os enunciados contêm um número exagerado de questões demasiado elementares. Mesmo com estas questões, os resultados têm sido maus. Imagina-se que poderiam ser bastante piores se os enunciados fossem mais exigentes. Em segundo lugar, os enunciados têm pecado por um vício pedagógico: não se centram em questões relacionadas com os algoritmos e os conceitos básicos que os alunos deveriam dominar, mas sim em aplicações diversas, com questões em que a interpretação e a conjectura sobre os pressupostos assumem um papel excessivo.

Infelizmente, é a ultrapassada teoria da “aprendizagem em contexto” e do “ensino organizado em competências” que está a ser exageradamente aplicada, tal como está a ser exagerada a importância da “comunicação matemática”, em detrimento dos conteúdos curriculares precisos.

(...)

Em síntese, os alunos não são testados devidamente na matéria que deveriam dominar. Com o pretexto de inserir os conceitos e algoritmos em questões aplicadas, acaba por não se testar devidamente nem o domínio dos conceitos nem o domínio dos algoritmos. Um bom desempenho não parece equivalente ao domínio da matéria. Os professores que têm insistido com os seus alunos na importância do cálculo e do raciocínio não se sentem apoiados com esta prova.

Talvez o dado mais dramático de que ninguém fala

Não vai demorar mais do que 10 anos para que Portugal tenha um grave défice de professores. É só olhar, compreender e fazer contas.


Envelhecimento dos docentes (ensino público e não-público, em 2002/03)

Nível de ensino

% de docentes com 50 anos de idade ou superior

Índice de envelhecimento*

Educadores de infância

8,6%

26,9%

Professores do 1º ciclo

23,3%

82,7%

Professores do 2º ciclo

27,2%

92,1%

Prof. 3ºciclo e Secundário

17,6%

52,1%

* Total de docentes com 50 ou mais anos / total de docentes com menos de 35 anos x 100 Fonte: GIASE, Doc. Set. 2005


in Blog terrar - post de José Matias Alves

Uma tecnologia social moribunda

A euforia tem já alguns dias. Mas não posso deixar de a citar e comentar:

O número de estudantes do Ensino Secundário que frequentam cursos profissionais de nível 3 - com duração de três anos e de equivalência ao 12.º ano -, em solo continental, aumentou de 33.341 no passado ano lectivo para 44.466 no corrente ano lectivo. A subida foi de 11.125 alunos e, destes, 93% estão matriculados em estabelecimentos de ensino público. Os dados constam do estudo do Ministério da Educação (ME) relativo à frequência escolar no Ensino Secundário que, muito em breve, estará disponível no site oficial do ME. Ontem, o secretário de Estado da Educação, Valter Lemos, participou na cerimónia de entrega de diplomas a 148 alunos da Escola Profissional da Região Alentejo (EPRAL), em Évora, cuja taxa de empregabilidade mais recente - relativa aos quatro meses seguintes à conclusão do curso - ronda os 65%. Os diplomados - do curso 2003/06 - formaram-se nas áreas de técnico auxiliar de infância, animador sócio-cultural, técnico de construção civil, de gestão, de hotelaria/restauração, de informática/ manutenção de equipamentos, de multimédia e de serviços jurídicos. Na cerimónia, Valter Lemos realçou "o crescimento sem paralelo" do ensino profissional, afirmando que em 2005/06 havia 48 turmas e são agora 500. 20 mil voltaram a estudar O estudo do ME revela ainda que o número de jovens que tinham abandonado o sistema de ensino sem terem concluído a escolaridade obrigatória e que tinham ultrapassado a idade para frequentar o ensino regular subiu de forma exponencial. Em 2005/06 estavam matriculados - no Ensino Básico - oito mil estudantes e este ano 20 mil frequentam cursos profissionalizantes de nível 2, que podem durar um ou dois anos lectivos, ficando com o 9.º ano e um diploma profissional. Graças ao programa Novas Oportunidades, financiado pelo QREN - Quadro de Referência Estratégico Nacional que enquadra os fundos comunitários até 2013. Uma meta que superou as previsões do ME. "Tanto o número de inscritos nos cursos de nível 3 como dos cursos de nível 2 estão acima das expectativas. Nunca consegui ser tão optimista quanto mostram os relatórios", revelou o governante ao JN, após a sessão em Évora. O retorno de 20 mil jovens ao Ensino Básico "só estava previsto para 2009", adiantou. A leitura da tutela é que, não só houve uma quebra no abandono escolar, como muitos jovens voltaram a estudar atraídos pelos cursos profissionalizantes criados nas escolas públicas, pois "a rede das escolas profissionais era insuficiente". O governante disse ainda que a taxa de abandono, no básico, chega aos 20%, sendo desejável que se alcance a taxa zero dentro de três anos. No secundário, nem um quarto dos jovens frequenta cursos profissionais e o objectivo é que, em 2010, metade os frequentem, como já acontece na maioria dos países da OCDE.

É recorrente o enunciado desta meta dos 50% a frequentar as vias técnico-profissionais (valor médio da UE). Já o Ministro Oliveira Martins a predizia, se não erro para 2008. A manipulação dos números também não deixa de ser curiosa. Lembro de memória que há 14 anos o número de alunos que frequentava o ensino profissional mais o ensino tecnológico no ensino secundário andava perto o número aqui anunciado como superando as expectativas. E que a percentagem era na altura de cerca de 33%. Para quem tem memória tudo isto é um pouco triste. Sobretudo porque é um embuste. Porque a questão chave, como insistentemente tenho referido, não se joga no terreno escolar. Joga-se no terreno do trabalho, do recrutamento dos diplomados, nas oportunidades de carreira que o mercado de emprego consegue (ou não) oferecer. E é aqui que bate o ponto. Os níveis de desemprego juvenil (que é um escândalo público), diplomados com os cursos profissionais e tecnológicos incluídos, são bem a evidência do lugar onde é preciso investir.


Post de José Matias Alves in Blog terrear

sexta-feira, 23 de maio de 2008

A Fábrica de Diplomas ou como melhorar estatísticas milagrosamente

Como funcionam os Centros Novas Oportunidades?

Veja como e fácil um rapaz ou rapariga de 18 anos que abandonou a escola ficar com um certificado que lhe dá equivalência ao 9º ano ou ao 12º ano. Com este expediente, Portugal corre o risco de, em breve, ganhar dois recordes: ser o país da OCDE com mais qualificações académicas e ter a maior taxa de desemprego.

Os Centros Novas Oportunidades organizam a sua intervenção de acordo com as seguintes etapas:

Acolhimento – Consiste no atendimento e na inscrição do adulto num centro, pressupondo o esclarecimento acerca das diferentes fases do processo a realizar, bem como da possibilidade de encaminhamento para ofertas educativas e formativas ou para o processo de RVCC.

Diagnóstico – Implica a realização de uma análise do perfil do adulto, com o objectivo de proceder à identificação das respostas mais adequadas, tendo em conta o diagnóstico efectuado.

Encaminhamento – Tendo em conta o diagnóstico efectuado, visa direccionar o adulto para a resposta mais adequada, que poderá consistir no desenvolvimento de percursos de educação e formação exteriores ao centro ou na realização de um processo de RVCC.
Reconhecimento de competências – Tem em vista a identificação, pelo adulto, dos saberes e das competências que adquiriu ao longo da vida, através de um conjunto de actividades, assentes na metodologia de balanço de competências e na utilização de instrumentos diversificados de avaliação. O adulto evidencia as competências adquiridas, através da construção de um Portefólio Reflexivo de Aprendizagens, de modo a permitir a validação das mesmas, tendo em conta os referenciais constantes do Catálogo Nacional de Qualificações, para efeitos do RVCC.

Validação das competências – Compreende a auto-avaliação do Portefólio Reflexivo de Aprendizagens, em articulação com a avaliação dos profissionais de reconhecimento e validação de competências e dos formadores das respectivas áreas de competências-chave.

Formação – No caso de, no decurso do processo de reconhecimento e validação de competências, terem sido identificadas necessidades de formação, pode proceder-se de duas formas. No caso de o adulto necessitar de acções de formação com uma duração superior a 50 horas, deve realizá-las em entidades formadoras exteriores ao Centros Novas Oportunidades. No caso de precisar de acções de formação até 50 horas, inclusive, estas podem ser realizadas nos centros.

Certificação das competências – Pressupõe a apresentação perante um júri de certificação, que atribui uma certificação ao adulto, no caso de lhe serem reconhecidas as competências-chave necessárias para uma determinada qualificação, em conformidade com os referenciais do Catálogo Nacional de Qualificações. Nestas circunstâncias, a certificação de competências dará origem à emissão de um certificado de qualificações, conferindo igualmente um diploma de qualificação, se o referido processo conduzir à obtenção de um nível de escolaridade.


Post de Ramiro Marques in http://ramiromarques.blogspot.com/

terça-feira, 13 de maio de 2008

A vertigem do êxito

Transcreve-se excerto do artigo com o título de cima da professora Maria do Carmo Vieira publicado no último "JL Educação" (7 a 20 de Maio):

"A manter-se em funcionamento a brilhante equipa do Ministério da Educação, cujo canto 'a capella', mal ensaiado, encalha nas vozes do secretário de Estado adjunto da Educação e do secretário de Estado da Educação, são de esperar iniciativas tendentes a melhorar ainda mais rapidamente as estatísticas do ensino. As afirmações de que 'temos um sistema extremamente exigente e selectivo, que exclui uma parte significativa dos jovens (...) ' (Jorge Pedreira in Público, de 5/12/2007) e de que 'é um facto real que os países que não têm repetência, ou que têm taxas baixas, apresentam melhores resultados escolares medidos em termos de aprendizagem' (Valter Lemos, in Público, de 16/12/2007) parecem confirmar aquele objectivo. Assim, há que acabar com a exigência e, em simultâneo, a repetência, para que melhore o aproveitamento dos alunos. O êxito será então garantido se os alunos portugueses não se submeterem aos testes do PISA."

in Blog De Rerum Natura - ler post

domingo, 11 de maio de 2008

Trabalhar para as estatísticas...

O presidente da Associação Empresarial de Portugal (AEP), Ludgero Marques, defendeu ontem a necessidade de haver "verdade" na educação e formação em Portugal, criticando a função meramente "estatística" do programa Novas Oportunidades.

"Não se deve desvirtuar a qualificação com propostas de formação, ou de novas oportunidades, que nos podem servir apenas para questões de estatística. É bom que haja definitivamente verdade na educação e formação em Portugal", afirmou Ludgero Marques em Santa Maria da Feira, na cerimónia comemorativa dos 159 anos da AEP. Leia o resto no Sol Online de ontem.


Comentário
Agora foi a vez do patrão dos patrões reconhecer que o programa Novas Oportunidades tem uma finalidade meramente estatística. Embaraça e irrita ver José Sócrates, quase todos os dias, a tecer elogios a um programa que é visto por quase todos como uma manobra de propaganda. Não seria mais sério, exigir que as pessoas que abandonaram a escola voltassem a ela, em vez de dar equivalência a graus académicos com base num simples portefólio e em meia dúzia de sessões na presença de uns técnicos onde se discutem histórias de vida e se fazem umas redacções?

in http://professoresramiromarques.blogspot.com/ - post de Ramiro Marques

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Mas um vítima numa Escola Pública...

30 Abril 2008 - 00h30
Laranjeiro: Na semana passada
Aluno expulso após agressão a auxiliar

Um aluno de 16 anos, do 8.º ano do curso de Educação e Formação na Escola 3.º Ciclo e Secundária Ruy Luís Gomes, no Laranjeiro, agrediu na passada quarta-feira, com um murro na cara, uma cozinheira após esta o alertar para comportamentos impróprios, como jogar à bola e gritar no bar da escola.

Na sequência da agressão, ao que o CM apurou junto de professores e auxiliares, o aluno foi expulso da escola e terá de ser transferido. A funcionária agredida, chefe de cozinha da Eurest, apresentou queixa na esquadra da PSP do Laranjeiro.

Na sequência da agressão, ao que o CM apurou junto de professores e auxiliares, o aluno foi expulso da escola e terá de ser transferido. A funcionária agredida, chefe de cozinha da Eurest, apresentou queixa na esquadra da PSP do Laranjeiro.

Depois de, num primeiro momento, dizer que a sanção disciplinar é do "foro interno da escola" – a menos que implique expulsão e transferência, como será o caso –, o director regional de Educação, José Leitão, recusou ontem prestar mais esclarecimentos. O Conselho Executivo da escola já remetera qualquer informação para a Direcção Regional de Educação de Lisboa e Vale do Tejo (DREL).

Pelo contrário, alunos (um dos quais testemunha ocular da agressão), auxiliares e professores confirmaram a agressão e explicaram como foi.

TESTEMUNHA

Um dos alunos que viu a cena relatou-a ao CM, sob anonimato, por recear represálias:"Estávamos no bar, uns a jogar à bola, outros a batucar. Ela chamou a atenção por causa do barulho, e o ‘ZZZ’ [alcunha do agressor] não gostou e deu-lhe um murro."

A mesma versão, acrescida de um outro pormenor, como"linguagem imprópria", foi a contada ao CM por uma auxiliar da escola, que ali exerce funções há cerca de dez anos. "Ela pediu tento na língua e o rapaz deu-lhe um murro."

A auxiliar pediu anonimato tanto para si quanto para a vítima, garantindo que"os alunos gostam imenso dela" e lamentando que "os políticos só se lembram dos professores".


Certo é o apreço de alguns alunos pela vítima, havendo quem perguntasse o seu nome para logo comentar: "Ah foi essa!? Tchii! Mas ela é bué de fixe e bué de baril."

AGREDIDO COM TACO NO PORTO

Um aluno da Escola Infante D. Henrique, no Porto, foi ontem agredido na cabeça com um taco de basebol por rapazes que não foram identificados como alunos do mesmo estabelecimento. A agressão ocorreu por volta da hora do almoço, junto à porta do local de ensino e apenas uma funcionária terá visto parte dos factos e socorrido o jovem ferido. Ao que tudo indica, na origem deste incidente terá estado uma rixa por motivos ainda desconhecidos. A vítima teve de receber tratamento médico mas os ferimentos não são graves.

in Correio da Manhã - ler notícia

domingo, 27 de abril de 2008

Post interessante no Blog Crítica de Música

Do Blog CRITICA DE MUSICA / CRITICA MUSICAL, publicamos excertos do post de hoje, de autoria de Álvaro Sílvio Teixeira, feito com texto pessoal e citações de outros:

(...)


Insucesso real e insucesso estatístico

Alguns comentadores de pena leve olham para as estatísticas de insucesso escolar e manifestam a sua incontida indignação pelos resultados. Contudo, se as estatísticas reflectissem apenas as aprendizagens tout court dos alunos, o panorama seria bem mais negro. Muitos dos resultados positivos vertidos nas estatísticas reflectem apenas modestos progressos dos alunos e não aprendizagens significativas. Contudo, a responsabilidade deste insucesso relativo jamais poderá ser seriamente atribuída aos professores, uma vez que resulta de problemas a montante da sala de aula que, em última análise, cabe ao poder político resolver. Não cabe seguramente aos professores e à escola solucionar os graves problemas sociais, familiares e de saúde de muitos milhares de alunos e das suas famílias. Os professores assumem as suas responsabilidades, o Governo que assuma as suas.

Ao contrário do que diz a senhora ministra da Educação, os professores não estão zangados por terem recebido este ano mais 30 mil dos piores alunos. Não. Os professores sabem que todos os alunos, melhores ou piores, devem estar na escola e não na rua. Os professores estão zangados, sim, é por lhes enviarem esses alunos “difíceis” para a escola, sem os devidos meios complementares que os permita recuperar de facto. Onde está a intervenção na família, muitas vezes desestruturada e maltratante? Onde está a intervenção ao nível da economia familiar, muitas vezes, em colapso? Onde está a indispensável intervenção terapêutica junto de muitas destas famílias? Os professores são profissionais polivalentes, têm uma formação em banda larga, alguns até se assumem como missionários da causa, mas ainda não têm o dom divino de fazer milagres. Não se formam eficazmente alunos problemáticos com palmadinhas nas costas, como não se tratam doentes graves com aspirinas. A escola inclusiva não pode ser confundida com um armazém de alunos, exige meios complementares de apoio significativos para ter sucesso efectivo.

A diminuição do abandono escolar no último ano tem sido um dos troféus apresentado por esta equipa do Ministério da Educação. Como sempre, as estatísticas devem merecer uma leitura mais atenta. O que fez alguns milhares de alunos regressarem ou decidirem não abandonar a escola? Além de outros factores, na minha opinião, como a situação difícil do actual do mercado de trabalho e a menor aceitação social da contratação de menores, houve dois factores decisivos: a promessa de diplomas profissionais fáceis e a oferta de computadores portáteis a preço reduzido. O Governo teve o mérito de pedir às escolas para recrutar o maior número de alunos possível e estas deram o seu melhor para o conseguir. O problema está no dia seguinte.

Não faltará muito até as empresas começarem a perceber que a leveza destes diplomas é incompatível com as suas necessidades de recursos humanos. Não basta conceder diplomas, é preciso que eles sejam credíveis e aceites no mercado de trabalho. Seguramente, alguns alunos tirarão proveito da formação ministrada e faço votos para que sejam muitos, será o País a ganhar. Todavia, o panorama não se afigura cor-de-rosa, numa época em que as empresas exigem cada vez mais dos seus profissionais. As escolas podem fixar objectivos mínimos para os alunos com dificuldades, mas nas empresas os objectivos serão sempre máximos. E o pior que qualquer sistema de ensino pode oferecer é diplomas sem credibilidade.

Já aqui defendi que a solução profissional para muitos destes jovens passa pela criação de uma bolsa de mercado social de emprego, apoiado pelo Estado, ao qual acederiam prioritariamente. Num mercado concorrencial, onde grassa o desemprego, a possibilidade de muitos destes jovens problemáticos conseguírem um emprego duradouro é quase nula. Só espero que, mais uma vez, não recaia sobre os professores, que dão o seu melhor em condições muito difíceis, o ónus destas políticas voluntaristas, traçadas para fazerem brilhar rapidamente as estatísticas. E estatísticas, como os chapéus, há muitas.

Mário Lopes in tintafresca.net (edição n.º 90)


Populistas clichés

Repete o Governo que é preciso distinguir os bons dos maus professores. Ora, quem percebe alguma coisa de educação sabe que esta divisão maniqueísta entre professores bons e maus não passa de uma ficção. Há professores com umas características, outros com outras e, de um modo geral, todas são importantes. A escola é feita de diversidade e os alunos só têm a ganhar em ter professores com características diferentes. Há, por isso, também fundados receios de que este sistema seja castrador das diferenças e promova mais a intolerância do que o mérito.

Uns professores valorizam mais a autoridade, outros a tolerância. Qual é o bom e qual é o mau? Um professor traz as aulas milimetricamente preparadas, outro é mais criativo e valoriza mais a interacção e a participação dos alunos. Qual é o bom e qual é o mau? Um professor é circunspecto, outro cultiva a proximidade com os alunos. Qual é o bom e qual é o mau? Como se vê, a avaliação de professores está muito longe de ser uma ciência exacta.

Outro cliché afirma que esta avaliação visa distinguir os professores com vocação dos professores sem vocação. Ora, não conheço nenhum “vocaciómetro” para medir a vocação de cada um, sendo a noção de vocação seguramente mais um estado de alma do que um dado objectivo. Nada garante que um professor supostamente com muita vocação seja melhor que um professor com menor vocação, mas que faz o seu trabalho com profissionalismo, como há péssimos cantores a jurarem que nasceram para cantar e óptimos músicos a dizerem que só o são por acidente. Exemplos não faltam, na música, na profissão docente ou em qualquer outra área.

Idem


Escrutínio e gestão escolar

Além do crédito comum à generalidade dos portugueses, os professores têm ainda o crédito de serem um exemplo para os seus alunos. E são-no de facto, ou não fosse a profissão docente das mais escrutinadas do mundo, sendo o comportamento de cada professor controlado diariamente por centenas de alunos, pais, auxiliares de acção educativa e pelos próprios colegas professores. Dificilmente este sistema de avaliação, informal mas efectivo, toleraria professores que não fossem um exemplo, pelo menos na escola. Têm, portanto, esse crédito acrescido.

Por último, uma nota para o novo sistema de gestão das escolas. Como já referi atrás, a comunidade docente numa escola reduz-se a algumas dezenas de professores. De entre estes, pouco mais de uma dezena podem, geralmente, ascender ao cargo de director, sendo necessário, para tal, experiência no cargo ou o curso de Administração Escolar. Ora, este número, em muitos casos, é claramente insuficiente para garantir massa crítica e proporcionar a indispensável pluralidade de opções para o cargo. Muitas vezes, só irá haver um candidato ao cargo de director. Por isso, nada garante que o futuro director seja uma pessoa reconhecidamente competente no cargo.

A democraticidade interna das escolas assegura hoje que estejam em cargos intermédios pessoas tanto ou mais capazes que os presidentes dos conselhos executivos, o que permite às escolas respirarem mesmo que um presidente do conselho executivo seja menos competente ou dialogante. Ora, o novo modelo de gestão escolar vai concentrar todos os poderes numa só pessoa, o que não garante necessariamente maior eficácia às escolas e vai fatalmente potenciar situações de prepotência e compadrio pessoal e partidário. Uma vez mais se comete o erro de importar mal um modelo das empresas para a Administração Pública, apesar de serem realidades completamente diferentes.

... temos assistido a um frenesim de comentadores do regime brandindo as estatísticas da educação para defender que “é preciso fazer qualquer coisa” e que estas “reformas” têm de continuar. Ora, o que o País certamente não precisa é que se faça “qualquer coisa”: isso foi o que fizeram os 26 ministros da Educação dos últimos 30 anos! O Ministério da Educação não deve ser um campo para o experimentalismo inconsequente nem palco de reformas voluntaristas. O que Portugal precisa é que a Educação seja definitivamente levada a sério e executada serenamente com o aval de quem sabe do assunto: os professores.

Ibidem


NOTA
: O Texto original aqui citado encontra-se AQUI.

sábado, 29 de março de 2008

Como construir Estatísticas de Sucesso

Do Blog A Educação do meu Umbigo, do colega Paulo Guinote, publicamos, com a devida vénia, o seguinte post:

Para que não digam que é embirração minha quando escrevo que entre nós a produção de estatísticas não passa de um artifício para mascarar a realidade atrás de uns gráficos e uns números recortados a gosto, ficam aqui duas notas recolhidas no Expresso de hoje sobre o modo como o ME encara a representação estatística da realidade para consumo dos distraídos e para apresentar na forma de «resultados» em debates parlamentares, conferências de imprensas, entrevistas «confortáveis» e outras ocasiões igualmente irrelevantes:

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Agora fica aqui o destaque para a edição do Le Monde - Dossiers & Documents deste mês, dedicada exactamente a demonstrar como se falsificam, distorcem e/ou manipulam os números para efeitos políticos.

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A roda já foi inventada há muito tempo. Parece é que há muita gente que ainda não percebeu como e continua a não querer perceber a enorme mistificação em curso com estes novos Observatórios de não sei bem o quê.