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domingo, 22 de março de 2009

Haja quem diga a verdade!

Reunião na Golegã
Paulo Portas: violência escolar é resultado de ambiente condescendente
21.03.2009 - 15h04 Lusa

O líder do CDS-PP, Paulo Portas, disse hoje, na Golegã, que o aumento da violência nas escolas é resultado do “ambiente condescendente” e de “facilitismo” promovido pelo Governo.

“De cada vez que o Governo promove um ambiente condescendente, de facilitismo, obviamente retira exigência à escola, retira disciplina à escola e aumenta as condições para que existam agressões”, afirmou Paulo Portas, à margem da primeira reunião dos coordenadores do programa do Governo Escola Segura.

Sublinhando que “a escola é um lugar de conhecimento, não é seguramente um lugar de violência”, o dirigente do CDS-PP relacionou ainda o aumento das agressões a professores e alunos nas escolas à autoridade dos docentes.

“Eu quero deixar claro que de cada vez que o Governo põe em causa a autoridade dos professores, e tem posto a autoridade dos professores repetidamente em causa, está a criar um clima propício para que não haja respeito, incluindo físico, pelos professores”, declarou.

O número de agressões a professores e alunos aumentou 11,3 e 20,6 por cento, respectivamente, em 2007/08, face ao ano lectivo anterior, segundo dados do programa Escola Segura apresentados ontem.

Já o número total de ocorrências registadas pela Escola Segura no último ano lectivo, de acordo com o coordenador do Observatório para a Segurança Escolar, João Sebastião, foi de 6039, enquanto em 2006/07 situou-se nas 7028, o que representa uma diminuição de cerca de 14 por cento.

Em 2006/07 verificaram-se 1092 agressões a alunos, tendo no ano lectivo seguinte aumentado 225, enquanto relativamente aos docentes passaram de 185 para 206 em igual período.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Sobre a famosa Directora Regional da Educação do Norte e outras tonterias anti-democráticas

Já é tempo de a drenar

Com a devida vénia transcrevemos a crónica de Santana Castilho no "Público" de hoje:

Penso ter sido Tolstoi que disse ser a liberdade uma consequência, que não um fim, e que não alcançamos a liberdade buscando a liberdade, mas sim a verdade.

No Carnaval que passou aconteceram coisas bizarras, que mostram quão longe estamos de ser uma sociedade livre e uma democracia adulta. Recordemos: uma directora famosa calcou com a bota cardada do poder uma decisão legítima do Conselho Pedagógico do Agrupamento de Escolas de Paredes de Coura; uma procuradora zelosa censurou, rápida, a sátira que desagradou a um cidadão beato; e um corajoso golpe de mão de polícias incultos apreendeu livros, como outrora. Tudo em nome dos bons costumes e a bem da nação. Ora a grotesca ousadia destes pequenos chefes só é possível porque o grande chefe encoraja laboriosamente o "quero, posso e mando". E é isso que tornou o caricato sério e deve mobilizar a nossa atenção.

O plano de actividades das escolas é um projecto sujeito a alterações. Tem carácter previsível, que não taxativo. Serve de orientação da acção pedagógica, a qual pode e deve ser corrigida em função da avaliação continuada do Conselho Pedagógico. Porque o órgão próprio decidiu suspender o desfile carnavalesco dos alunos nas ruas e alguns pais não gostaram, a excelsa dona da DREN (Direcção Regional de Educação do Norte) não hesitou. Puxou pela cabeça e proibiu a presidente do Conselho Executivo de prestar declarações à comunicação social. Puxou pela autoridade e enviou para a escola, primeiro uma, depois outra, duas falanges de intimidação (onze agentes, no total). Puxou finalmente pela pena e, no inenarrável estilo literário que lhe conhecemos, escreveu este belo naco de prosa de "novas oportunidades":

"A confirmarem-se as notícias vindas a público sobre a suspensão de actividades previstas no Projecto Educativo e no Plano de Actividades dessa Escola, e na salvaguarda primeira das obrigações da escola - cumprir a sua missão de processos de socialização e de aprendizagem para os alunos, razão central porque definiu as actividades de Carnaval nos documentos de acção educativa anteriormente referidos.
Tomando por base estes pressupostos, determino:
...
3. Sendo certo que muitos docentes não se aceitam o uso dos alunos nesta atitude inaceitável, ..."

A insigne directora sentiu-se certamente uma grande chefe e educadora quando viu os seus subordinados professores, amordaçados e algemados, acompanharem os alunos na mais importante actividade educativa do ano: o desfile carnavalesco pelas ruas da urbe.

Esta chefe é a chefe durona que tentou meter nos eixos o professor Charrua, quando ousou dizer "uma graça sobre o primeiro-ministro de Portugal". Esta chefe é a chefe generosa que viu uma simples "brincadeira de mau gosto" no aluno que, em plena aula, apontou uma pistola de plástico à cabeça da professora. Esta chefe é a chefe erudita que, a propósito do Magalhães, nos legou mais este lanço antológico:

"... 3. Em Janeiro, deverá ser marcado um dia em que as crianças devem trazer os Magalhães, para iniciar o trabalho casa-escola.
4. O pagamento dos Magalhães, nos casos em que a isso os pais sejam obrigados, estão a receber informação por sms devendo, em todas, constar a entidade 11023; ..."

Esta chefe é a chefe disciplinadora que se ufanou, ao Diário de Notícias, de já ter instaurado 778 processos disciplinares.

Esta chefe é a chefe documentalista que me vai fichar porque hoje a trouxe à crónica. Esta chefe está a um passo da comenda, eu sei. Mas já é tempo de a DRENar.

Santana Castilho, Professor do ensino superior

domingo, 8 de fevereiro de 2009

A geração albinóide

Que geração será a das crianças que vão passar doze horas na escola?
07.02.2009, Natália Faria

Adolescentes como os do filme Paranoid Park, quase delinquentes. Ou como os outros, sem mais dramas. Mas o tempo a mais na escola deve ser para brincar


Diz o psiquiatra Daniel Sampaio: "O que é preciso é modificar os horários dos pais e não aumentar o tempo de permanência das crianças na escola. Se persistirmos neste modelo, estaremos a criar uma geração de adolescentes como a do Paranoid Park, do Gus Van Sant", ou seja, jovens a arriscar a fronteira da delinquência.

Diz o psiquiatra Daniel Sampaio: "O que é preciso é modificar os horários dos pais e não aumentar o tempo de permanência das crianças na escola. Se persistirmos neste modelo, estaremos a criar uma geração de adolescentes como a do Paranoid Park, do Gus Van Sant", ou seja, jovens a arriscar a fronteira da delinquência.

Desdramatiza o neuropediatra Nuno Lobo Antunes: "Não antecipo nada esse cenário. Não creio que a permanência das crianças na escola durante mais tempo vá provocar uma hecatombe ou deitar a perder uma geração. Não sendo a situação ideal, não me parece que as crianças fiquem mal empregues".

A possibilidade de as escolas do 1.º ciclo do ensino básico funcionarem 12 horas por dia, entre as sete da manhã e as sete da tarde, posta esta semana em cima da mesa pela Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap), está longe de gerar consensos. A filosofia é adequar o horário das escolas públicas às jornadas de trabalho dos pais, libertando-os da necessidade de recorrer aos ATL (Actividades de Tempos Livres) que, ainda por cima, saem muito caros. De caminho, procura-se pôr a escola pública a funcionar numa lógica de centro escolar, capaz de oferecer terreno seguro para a brincadeira e para aprendizagens alternativas.

O Ministério da Educação garante que nada está decidido. "As actividades de enriquecimento extracurricular têm uma comissão de acompanhamento que analisará todas as eventuais propostas que surgirem nesse sentido. Só depois o ministério poderá avaliar e decidir", lê-se na resposta às perguntas colocadas pelo PÚBLICO. E dali não se arranca nem mais uma vírgula. Mas o presidente da Confap, Albino Almeida, garante que o processo está a ser negociado há um ano e está em fase avançada.

Para Daniel Sampaio, porém, a equação está posta ao contrário. "A escola não é feita para substituir a família", sustenta. Se persistirmos neste modelo, ou seja, na legitimação da ideia de que os pais não têm tempo para cuidar dos filhos, "estaremos a contribuir para que as crianças se transformem em adolescentes sem regras". Como os do filme de Gus Van Sant. "Não é um bom caminho", insiste, preconizando que os pais - "pelo menos um deles" - tem de poder chegar a casa mais cedo para estar com os filhos, "pelo menos até que estes tenham 15 anos".

Uma nova organização social é o que reivindica também a Federação Nacional dos Professores (Fenprof). "Pobres pais e pobre sociedade em que se propõe que as crianças possam ficar doze horas enfiadas numa escola", reage Francisco Almeida, daquele sindicato, para quem o novo Código de Trabalho vem desregular ainda mais o já desregulado mundo laboral na relação que este tem que ter com a família.

"As bolsas de horas vão permitir que as pessoas possam fazer jornadas de trabalho intensivas durante um período e que compensem depois, o que traz óbvias dificuldades de conciliação do trabalho com a família", acrescentou, pondo-se a fazer contas:"Se uma criança fica doze horas na escola, dorme oito e gasta uma hora ou hora e meia nos transportes não tem tempo nenhum para estar com os pais: se assim for, haverá miúdos que não chegam a deitar-se no colo do pai".

Para Nuno Lobo Antunes o ideal seria que fosse diferente. Mas, "num tempo em que para os casais terem um mínimo de qualidade de vida é fundamental a existência de dois salários, e numa altura em que para se ser competitivo no mundo do trabalho tem que se dispor de mais horas do que as que seriam exigíveis, o alargamento do horário das escolas "é uma medida que resulta das necessidades e das circunstâncias do tempo actual".

Nada que ameace traumatizar as crianças. "A verdade é que imensa gente frequentou colégios internos, portanto muito mais longe da família, e não me parece que isso lhes tenha tirado capacidade de imaginação ou autonomia", desdramatiza, lembrando que, "em muitos lares, a escola ainda é o espaço mais saudável a que as crianças têm acesso".

A professora na Escola Superior de Educação de Coimbra, Lucília Salgado, não anda longe deste raciocínio. "O ideal era que os pais estivessem com as crianças, mas isso é uma utopia no cenário actual de falta de emprego em que as empresas não cedem nada e os pais têm que trabalhar o máximo de tempo possível para conseguirem sobreviver". Portanto, ou as escolas se adaptam ou "muitas crianças ficam ao deus-dará ou a ver televisão, já que a rua há muito que deixou de ser espaço de brincadeira".

No cenário actual, o importante é garantir que este alargamento não signifique mais trabalho. "Cinco horas de estudo chegam. O resto do tempo tem que obedecer à regra dos três D's: descansar, divertir e desenvolver", defende Lucília Salgado. Um tempo que "seja de aprendizagem mas com características lúdicas e sem stress escolar".

O investigador Manuel Sarmento, do Instituto de Estudos da Criança, também impõe condições ao aumento da permanência na escola. "As actividades têm que ser organizadas pelas escolas, em articulação com as autarquias, e numa lógica de articulação com a comunidade.
Por outro lado, é crucial que as crianças tenham autonomia para decidir o que querem fazer e que a supervisão a que ficam sujeitas não esmague as suas possibilidades de desenvolvimento enquanto seres sociais".

in Público - versão on-line (link não disponível)


segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Entrevista a Alice Vieira - Público

Uma entrevista inteligente, interessante e útil:




NOTA:A Ministra da Educação deveria lê-la toda até a conseguir entender...

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Mais uma forma de lutar contra a aldrabice da avaliação simplezx 2...

Paralisação abrange período entre 20 de Janeiro e 20 de Fevereiro
Sindicatos entregam pré-aviso de greve às aulas assistidas
12.01.2009 - 15h25 Lusa

A Plataforma Sindical entrega hoje ao Ministério da Educação um pré-aviso de greve para o período entre 20 de Janeiro e 20 de Fevereiro. A iniciativa visa permitir aos professores avaliadores não assistir às aulas dos seus avaliados.

Segundo o regime simplificado do modelo de avaliação de desempenho definido pelo Governo, a componente científico-pedagógica, que assenta, sobretudo, na observação de aulas, deixa de ser obrigatória, excepto para os professores que ambicionem obter as classificações de Muito Bom e Excelente.

Nesses casos, os docentes têm de requerer que pelo menos duas aulas leccionadas por si sejam observadas por um avaliador, que não pode recusar-se a fazê-lo.

“Os avaliadores, ainda que discordando do modelo [de avaliação], estarão obrigados a essa tarefa, excepto se, no momento da sua concretização, se encontrarem de greve", explica a Plataforma Sindical, em comunicado.

Assim, a estrutura, que agrega onze sindicatos do sector, decidiu entregar ao ministério um pré-aviso de greve, que abrange todos os professores avaliadores, para o período compreendido entre 20 de Janeiro e 20 de Fevereiro, que coincide com a realização de aulas assistidas.

“Esta, como outras formas de luta, orienta-se para o combate ao modelo de avaliação imposto pelo Ministério da Educação, cuja suspensão [os professores] continuam a exigir”, adianta a plataforma.

A paralisação dos professores avaliadores tem início no dia seguinte à greve nacional agendada para 19 de Janeiro, a segunda realizada para contestar o actual modelo de avaliação. A 3 de Dezembro, os docentes realizaram a maior greve de sempre no sector, com uma adesão que o Ministério contabilizou em 61 por cento, mas que atingiu os 94 por cento, segundo os sindicatos.

in Público - ler notícia

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Manter a luta, preservar a esperança

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Público, 2 de Janeiro de 2009

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Notícia no Público

Porta-voz da Plataforma Sindical dos professores
Mário Nogueira: "O primeiro-ministro está sempre em desacordo"
10.12.2008 - 10h20 Lusa

O porta-voz da Plataforma dos Sindicatos da Educação, Mário Nogueira, disse hoje à Lusa que o primeiro-ministro, ao contrário do que afirma, está sempre em desacordo com as soluções apresentadas pelos sindicatos para a Educação.

"O primeiro-ministro diz que está disponível para tudo, mas está sempre em desacordo. Concordo com ele em que a Educação não é um exclusivo do Governo e dos sindicatos, é de toda a comunidade educativa. É um problema de toda a sociedade e do país", disse à Lusa o dirigente sindical.

Mário Nogueira comentava assim as declarações de José Sócrates, que quarta-feira, numa reunião com o Grupo Parlamentar do PS, disse que a Educação não é apenas um problema dos professores ou das escolas é uma matéria dos portugueses.

"Naturalmente, a política de educação tem de contar com os professores mas a educação é uma matéria de todos os portugueses", sublinhou o primeiro-ministro.

José Sócrates invocou neste contexto "o princípio democrático de que todos estão em condições para se pronunciar sobre política de educação" - e não apenas os sindicatos.

"Estou disponível para discutir tudo mas não podemos estar sempre de acordo. É a vida", declarou Sócrates, citado por um deputado socialista.

Em declarações hoje à Lusa, Mário Nogueira considerou que este Governo, assente na sua maioria absoluta, "começou a achar que a Educação era apenas um problema dele e passou a definir políticas e a tomar medidas que têm vindo a fazer com que a educação e o ensino tenham piorado".

"O primeiro-ministro ainda não compreendeu o que está em causa. O primeiro-ministro, como não ouve, como não aceita a opinião dos outros e acha que a maioria absoluta lhe dá o direito de arrogantemente continuar a dizer aquilo que acha sobre educação e até quais são as intenções dos outros nomeadamente dos sindicatos", frisou.

Mário Nogueira lembrou que os sindicatos pediram reuniões a todos os partidos políticos e que só o PS não respondeu ao pedido.

"São actos, práticas que no dia-a-dia contrariam todas as palavras de eventual abertura para resolver o problema. Nós achamos que o caminho do diálogo é a solução para os problemas", disse.

Sobre a antecipação para quinta-feira da reunião com o Ministério da Educação sobre o modelo de avaliação de desempenho, o sindicalista defendeu o caminho do diálogo como solução para os problemas.

"Esperamos que quando a reunião começar às 14h00 não esteja aprovado no Conselho de Ministros (que se reúne de manhã) aquilo que está previsto ser discutido, nomeadamente o regime de avaliação transitório para vigorar este ano", disse.

De acordo com Mário Nogueira, se isto acontecesse seria muito negativo e contrário aos interesses do país, de serenar os ânimos e o clima nas escolas.

Mário Nogueira referiu que em cima da mesa para a reunião de amanhã estão dois pontos essenciais: "A solução para este ano da avaliação em regime transitório, tendo em conta que a aplicação do modelo não é possível, e a abertura de um calendário de negociações que vise rever o estatuto da carreira docente".

O Ministério da Educação antecipou para amanhã a reunião com os sindicatos de professores sobre o modelo de avaliação de desempenho, que esteve agendada para o início da próxima semana.

De acordo com o ME, a decisão da plataforma sindical de suspender as greves regionais, que tinham sido convocadas até dia 12, permite antecipar o encontro, que vai realizar-se na sede do Conselho Nacional de Educação (CNE) e na presença da própria ministra Maria de Lurdes Rodrigues, que habitualmente se faz representar nas rondas negociais pelo secretário de Estado Adjunto.

Em comunicado, a tutela adianta que esta reunião "permitirá às associações sindicais apresentar as suas propostas sobre o processo de avaliação de desempenho em curso" e definir a agenda de futuros encontros.

Na sexta-feira passada, o Ministério da Educação e os 11 sindicatos do sector acordaram retomar as negociações sobre o processo de avaliação de desempenho, marcando para dia 15 uma reunião que o secretário de Estado Adjunto, Jorge Pedreira, aceitou realizar-se "com agenda aberta", na qual a tutela ouvirá "tudo o que os sindicatos têm a dizer", incluindo sobre a suspensão do actual modelo de avaliação.

in Público - ler notícia

sábado, 6 de dezembro de 2008

Vasco Pulido Valente no Público

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Público, 6 de Dezembro de 2008 (link não disponível)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

O país do faz de conta

Parlamento
Ministra admite substituir modelo de avaliação no próximo ano lectivo
04.12.2008 - 17h07 Lusa

A ministra da Educação admitiu hoje estar disponível para alterar e até substituir o actual modelo de avaliação dos professores, mas apenas no próximo ano lectivo e desde que seja aplicado já este ano. "Uma vez iniciada este ano uma avaliação séria dos professores, estarei totalmente aberta à discussão de alterações a este modelo e até à sua substituição, mas em anos seguintes, não neste", disse Maria de Lurdes Rodrigues, no Parlamento.

Durante um debate de urgência sobre a avaliação de desempenho dos docentes pedido pelo Bloco de Esquerda, a responsável recusou as acusações de "intransigência" repetidas por todos os sindicatos do sector e por todas as bancadas da oposição. A ministra reiterou, ainda, a sua disponibilidade para avaliar e corrigir o modelo de avaliação proposto pelo Governo, "mas apenas depois de ser aplicado".

Maria de Lurdes Rodrigues garantiu que a suspensão do actual modelo, como pedem os sindicatos, apenas significaria mais um ano com uma avaliação sem consequências, considerando que "só o conservadorismo, tanto à esquerda como à direita, ficaria contente" com essa situação.

Contudo, a ministra garantiu não ser "intransigente na defesa do modelo em vigor, mas apenas na defesa do princípio de uma avaliação séria e com consequências". E acrescentou: "Não me peçam para aceitar um modelo que assenta na auto-avaliação porque isso é apenas um modo disfarçado de nada propor", afirmou.

Durante o debate, Maria de Lurdes Rodrigues voltou a admitir que antes das alterações introduzidas pelo Governo, há duas semanas, o modelo "era mais burocrático do que devia, provocando uma sobrecarga de trabalho às escolas e aos professores", uma situação que considera ficar resolvida com as medidas de simplificação entretanto anunciadas.

Esta audição de urgência da ministra da Educação foi pedida pelo Bloco de Esquerda e todos os partidos da oposição vão apresentar projectos de resolução que pedem a suspensão do actual regime de avaliação dos professores, que serão votados amanhã.

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PS - Apenso à notícia há um pequeno vídeo com a apreciação do Director do Público sobre esta fuga/retira estratégica admirável da Ministra...

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Notícia no Público - GREVE

Luta contra política do Ministério da Educação
Plataforma sindical dos professores apela à participação na greve de amanhã
02.12.2008 - 17h49 Lusa

A Fenprof garante que a classe está unida nos seus objectivos

A plataforma sindical dos professores, que foi hoje recebida pelo Provedor de Justiça, Nascimento Rodrigues, apelou à participação dos docentes na greve de amanhã e garantiu que está unida na luta contra a política do Ministério da Educação.

"Queria deixar claro que a plataforma dos professores está unida, que a plataforma sindical dos professores não tem dúvidas de que é preciso de que os professores façam uma das suas maiores greves de sempre", disse o porta-voz da Plataforma e dirigente da Federação Nacional de Professores (Fenprof), Mário Nogueira, à saída da reunião.

O dirigente sindical negou "divergências internas dentro da plataforma", como noticiaram alguns meios de comunicação nos últimos dias, destacando que esta estrutura representa um conjunto de sindicatos em que "todos têm direito a ter a sua opinião". "Agora, no que não há divisão, não há dúvidas, não há opiniões contrárias umas das outras é que as 11 organizações sindicais de professores que estão na plataforma estão unidas na greve de professores de amanhã”, disse.

Mário Nogueira admitiu que "greve vai afectar a vida de milhares de famílias, mas salientou "que são 150 mil os professores cuja vida tem vindo a ser afectada por este governo". "A nossa expectativa é de que vai ser uma greve em que praticamente todos os professores vão participar", disse, acrescentando estar convencido de que, "depois da greve de quarta-feira, o ME não pode continuar com a sua posição intransigente, inflexível e anti-negocial".

"O ME tem um discurso de negociação e depois, na mesa da negociação, veta a possibilidade de discutir sequer a possibilidade de suspender o modelo. Ou seja, há disponibilidade do ME para negociar desde que seja o que o ME quiser fazer lei", considerou. Segundo Nogueira, a reunião de hoje com o Provedor da Justiça "vem no seguimento de outras com partidos políticos" para passar "preocupações relativamente à situação de grande instabilidade e conflito instalada nas escolas" e ainda questões que têm a ver "com aspectos jurídicos do modelo de avaliação e até com a sua constitucionalidade".

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sábado, 22 de novembro de 2008

Opinião no Público - São José Almeida

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Público, 22 de Novembro de 2008

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

terça-feira, 18 de novembro de 2008

O círculo começa a fechar-se

Maioria dos professores representados no órgão consultivo do ME votou a favor desta posição
Conselho das Escolas pede à ministra que suspenda a avaliação
18.11.2008 - 09h21 Isabel Leiria, Graça Barbosa Ribeiro, Clara Viana

A maioria dos professores presentes ontem na reunião do Conselho de Escolas com a ministra da Educação aprovou um documento pedindo à tutela que suspenda o processo de avaliação de desempenho, soube o PÚBLICO junto de várias fontes.
O documento será entregue hoje a Maria de Lurdes Rodrigues, e, apesar de a decisão não ter sido de todo unânime (30 votos a favor e 23 contra), promete agudizar o braço-de-ferro entre o Governo e os docentes.

O Conselho das Escolas é um órgão consultivo do Ministério da Educação (ME), criado pela actual equipa e onde têm assento dezenas de presidentes de conselhos executivos. Álvaro dos Santos, que preside a esta estrutura, não confirmou nem desmentiu a informação. Questionado sobre a existência deste documento, limitou--se a confirmar que foi votada uma posição já depois de Maria de Lurdes Rodrigues ter abandonado a reunião. E que essa posição iria ser "formalmente apresentada" hoje à ministra. "Não adianto nada", afirmou.

Em declarações ao PÚBLICO, Mário Nogueira, secretário-geral da Fenprof, garantiu ter tido a informação de que o documento a pedir a suspensão da avaliação foi aprovado por maioria.

A reunião de ontem é apenas um dos vários encontros agendados pela ministra da Educação para estes dias, com diversas entidades representativas do sector, no sentido de tentar encontrar formas de "melhorar as condições" da aplicação do processo de avaliação.

De acordo com Álvaro dos Santos, os professores não ouviram propostas concretas da tutela. "Manifestámos um conjunto de preocupações sobre a "exequibilidade do modelo" e o "clima difícil" que se vive, resumiu.

Certo é que o ME voltou ontem a garantir que não suspende a avaliação de desempenho dos professores. E, quase em simultâneo, os sindicatos voltaram a dizer que não desistem de lutar contra o modelo. Prometem criar uma nova frente de batalha nos tribunais, através de providências cautelares, e levar o caos às escolas, por via de uma vaga de greves. A primeira, de âmbito nacional, será no dia 3 de Dezembro. A esta seguir-se-ão paralisações regionais, que poderão estender-se às avaliações no 1.º período, se o processo não for entretanto suspenso pela tutela.

Notas sim, mas "mais tarde"

"Os alunos terão notas, só que estas sairão mais tarde", acautelou Mário Nogueira, que ontem, em conferência de imprensa da plataforma sindical, responsabilizou Maria de Lurdes Rodrigues pelos prejuízos: "A única coisa que prejudica os alunos é a teimosia da ministra".

Às escolas, o dirigente da Fenprof repetiu o apelo feito na semana passada: "Suspendam a avaliação", "não tenham medo". Será esta a prioridade. Depois é a escalada: manifestações nas capitais de distrito na última semana de Novembro e greves em Dezembro. A primeira estava inicialmente prevista para Janeiro.

Para os sindicatos, existe apenas um ponto de partida possível para desbloquear a actual situação: "Estamos dispostos a iniciar desde já a negociação de um modelo alternativo, mas o pressuposto para esta negociação é a suspensão do actual modelo. Não há espaço para soluções intermédias nem simplificações", anunciou Nogueira.

O ponto de partida dos sindicatos é precisamente aquele que é rejeitado pelo Governo. "Não há outro modelo, isto não é um pronto-a-vestir aonde se vai buscar um mais adequado. O que temos disponível para trabalhar é o modelo actual", repetiu ontem a ministra, citada pela Lusa, no final da reunião com o Conselho de Escolas.

Hoje será a vez de Maria de Lurdes Rodrigues ouvir as preocupações dos encarregados de educação, num encontro com a Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap). Para a Confap, é urgente que se crie uma plataforma de entendimento, com a participação de Sócrates, Maria de Lurdes Rodrigues, sindicatos e conselho de escolas, "por forma a que se devolva a serenidade e tranquilidade às escolas e às aprendizagens dos alunos."

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Também tu, António Vitorino...?!?

Opiniões de militantes socialistas destacados vão no sentido de arranjar alternativa à avaliação
António Vitorino propõe comissão independente para avaliar professores
18.11.2008 - 09h28 Lusa, PÚBLICO

António Vitorino defendeu ontem que o problema da avaliação dos professores devia ser entregue a uma comissão independente, aceite por ambas as partes, inspirada no modelo inglês. O socialista diz que só assim se poderá ultrapassar um conflito que “está prisioneiro de muitas paixões”.

"Seria bom que começássemos a pensar na possibilidade de haver uma comissão independente inspirada no modelo inglês, um grupo de sábios, pessoas que fossem aceites de ambos os lados", afirmou no programa da RTP, Notas Soltas, o comentário semanal que assina, na estação de serviço público.

António Vitorino pensa que só assim seria possível introduzir “um pouco de independência e de razoabilidade a um conflito que, já se percebeu, está prisioneiro de muitas paixões”.

Vitorino não é a única voz dentro do partido socialista que tem sugerido alternativas na abordagem ao problema da avaliação dos professores. Também ontem o deputado António José Seguro, presidente da Comissão Parlamentar de Educação, disse que "o primeiro passo para uma solução positiva é ouvir, saber ouvir os professores”.

Seguro falava numa reunião com cerca de uma dezena de conselhos executivos de escolas do distrito de Cpoimbra, que se realizou na Escola Secundária Infanta Dona Maria, considerada a melhor escola pública do ranking de exames nacionais mas que também já anunciou a suspensão do processo de avaliação.

Estiveram presentes mais de 50 escolas e agrupamentos do distrito de Coimbra numa reunião realizada na sequência de um pedido que os conselhos executivos fizeram a António José Seguro no fim-de-semana. "Não vim na qualidade de mediador, mas enquanto deputado e presidente da Comissão de Educação e Ciência", adiantou António José Seguro. “Vim ouvir os professores, como é meu dever.” Na sua opinião, importa fomentar o diálogo entre as partes para que o actual conflito em torno do sistema de avaliação dos docentes não seja encarado como "uma guerra de trincheiras".


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domingo, 16 de novembro de 2008

Opiniões - António Barreto

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Público, 16 de Novembro de 2008 (via blog A Educação do meu Umbigo)

Entrevista a João Lobo Antunes (Público/Renascença/RTP2)

Conheço muitos professores e nos últimos meses não vi um feliz
16.11.2008, José Manuel Fernandes e Graça Franco (Renascença)

O ministério tem de perceber as razões do descontentamento. E se, para haver diálogo, devem terminar as retóricas extremistas, depois tem de se decidir

Leu o Estatuto do Aluno e ficou apavorado. Tem falado com muitos professores e percebeu que o seu desconforto tem motivos que vão muito para lá das guerras da avaliação. Defende ainda que educar não quer dizer que os estudantes sejam obrigatoriamente felizes nas escolas, antes que recebam os instrumentos para construírem a sua felicidade.

- Há uns meses, aquando do primeiro protesto dos professores, disse que o "respeito pelos professores é um valor por si mesmo" e "que está acima de qualquer outra coisa". Seis meses depois, esta imagem não está ainda a ser mais atacada?
- Depois da expressão pública do que sucedeu há seis meses, achei que se iria entrar num período de paz. E se entendo que é um princípio fundamental o respeito por qualquer profissão, o respeito pelos professores é ainda mais importante, pois o futuro do país depende da educação dos seus cidadãos. Por isso estranho que, seis meses depois, regresse a mesma retórica de extremismo. Cada um fica no absoluto da sua verdade, sem aceitar os argumentos contrários, com culpas repartidas, e não sei como se vai sair daqui.

- Esta semana chegámos a assistir a alunos a atirarem ovos à ministra...
- Sempre ouvi falar, desde que estamos em democracia, em direito à indignação. A indignação, desta vez, manifestou-se sobre a forma da gemada, o que, numa altura em que há dificuldades e gente a passar fome, não penso ser a melhor forma de protestar.

- Os professores deviam tentar evitá-las?
- É difícil. Os alunos têm as suas formas de se exprimir e os professores sabem que é ilegal dar uma palmada.

- Depois da manifestação de 8 de Março, depois da acalmia que permitiu que os exames corressem bem, como se explica que os professores tenham voltado a Lisboa ainda em maior número?
- Porque, subterraneamente, o descontentamento era muito grande e não tinha sido resolvido. Depois de um Prós e Contras sobre este tema em que participei, fui chamado por um grupo de professores do distrito de Leiria e estive a ouvi-los. Percebi então que a questão era muito mais funda e não podia ser reduzida ao problema da avaliação. Depois, como médico, recebo muitos professores no meu consultório, conheço muitos professores, e nos últimos meses ainda não vi um feliz. Isso é altamente preocupante. As pessoas não estão satisfeitas, sentem-se muito limitadas no que fazem, até na capacidade de preparar as aulas, sentem-se encerradas numa "gaiola de ferro" burocrática. Encontro professores que, por doença, ficaram limitados, que são excelentes professores mas a quem dizem que ou trabalham de uma determinada maneira ou não podem entrar na escola. Como o consultório de um médico é um pouco como um confessionário, percebi que havia uma grande insatisfação que, agora, explodiu.

- O ministério não devia ter "sensores" no terreno para perceber isso mesmo? Ou há insensibilidade para entender o que sentem os professores?
- Acho que a palavra-chave é sensibilidade. E também afecto. É preciso olhar para isto de outra forma. Não vai à força, nunca foi. É necessário perceber as causas do descontentamento. Quando não há realização profissional, quando os professores não se sentem bem com o que estão a ter de fazer, nunca poderão dar o seu melhor à escola e aos alunos. Isto é uma verdade auto-evidente.

- A ministra diz que qualquer reforma desencadeia sempre resistências, enquanto pessoas como Manuel Alegre apelam ao diálogo...
- Um primeiro-ministro inglês do princípio de século XX dizia que a democracia era o governo pelo diálogo, mas para que funcionasse era necessário que se calassem. O diálogo não pode perpetuar-se sempre, a certa altura é necessário chegar a conclusões. Pessoas como eu, que foram treinadas para resolver problemas, sabem que há uma altura em que é necessário levar as pessoas a fecharem conversas. Ora, o que tenho sentido é que os alunos estão a ser esquecidos nesta discussão. Os professores tinham um trabalho a fazer, e basta ver como o processo dos exames do ano passado correu bem para ver que o fizeram. Mesmo não sendo fácil: sempre que me convidam, vou falar às escolas, e quando olho para aquelas turmas, para aqueles alunos, vejo como é difícil tê-los na mão.

- Os professores sentem que alguns instrumentos que tinham para controlar as turmas lhes foram retirados...
- Eu li o Estatuto do Aluno e aquilo é absolutamente mirabolante. Até o português que utiliza é de uma complexidade artificial, é o "eduquês" oficial, pelo que quando vejo aquela escrita desconfio do pensamento que a gerou, de como essas pessoas entendem a Educação. Ora, a Educação serve fundamentalmente para dar instrumentos de felicidade às pessoas. Ora, a felicidade não é gratuita, tem de ser construída. A escola não serve para manter alunos felizes. Já o Presidente Wilson, dos Estados Unidos, que antes era reitor da Universidade de Princeton, dizia que a preocupação de que os meninos têm de ser felizes na escola não faz sentido.

- O que faz sentido é dar-lhes instrumentos para depois serem capazes de construir a sua felicidade?
- Para construírem a sua felicidade e para serem cidadãos de uma democracia. A educação é um processo admirável porque é um processo de transformação. O que tenho escrito de natureza mais autobiográfica é muito sobre o processo da minha educação. E também, depois, sobre a experiência da partilha com os alunos.

- Quando dá as suas aulas, quando recebe alunos que não conhece, o que é que lhes diz?
- Primeiro que tudo, é necessário olhá-los nos olhos. Depois não se pode ter medo. Este ano dei duas aulas aos alunos do primeiro ano, a uma assembleia larga que bateu palmas no fim, e disse-lhes que tinham uma obrigação moral pelo simples facto de terem entrado para Medicina, até porque à porta tinham ficado muitos, se calhar alguns melhores do que eles. Disse-lhes que, quando se entra para uma universidade, assume-se um compromisso moral que tem de ser respeitado. E que isso implica muito trabalho. É importante que isto lhes seja dito sem medo.

(...)

in Público on-line - link não disponível

sábado, 15 de novembro de 2008

Texto interessante publicado no Público

O pesadelo burocrático e a desobediência à lei
11.11.2008 - 16h20 Aires Almeida
(Professor titular de Filosofia da Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes, de Portimão)

“O facto de os cidadãos estarem em geral dispostos a recorrer à desobediência civil justificada é um elemento de estabilidade numa sociedade bem ordenada, ou seja, quase justa”

John Rawls, Uma Teoria da Justiça

Tenho 48 anos e sou professor do ensino secundário há quase 26. Sou professor titular de Filosofia, não estou sindicalizado, não me recordo de ter faltado ao trabalho, mesmo em dias de greve, e não costumo participar em manifestações – nem sequer participei nas duas últimas grandes manifestações de professores, se bem que tenha pena de não o ter podido fazer. Nunca me passou pela cabeça ter outra actividade profissional, mesmo ganhando mais do que os 1850 euros que, após todos estes anos, recebo no final do mês.

Sei que para ensinar bem os meus alunos tenho de continuar a estudar, a ler e a aprender. Como costuma dizer um amigo meu, Desidério Murcho, para se ensinar bem até à letra C é preciso dominar as matérias até pelo menos à letra M: é preciso um grande à vontade e um bom domínio do que se ensina para se antecipar dificuldades dos alunos, para se responder a dúvidas inesperadas, para se encontrar o exemplo certeiro, para indicar as leituras adequadas, etc. Isto exige uma grande preparação e uma actualização permanente do professor, além de um ambiente de trabalho tranquilo e estimulante. Até porque são as deficiências científicas que originam, na maior parte da vezes, as situações pedagogicamente mais desagradáveis.

Infelizmente, os escassos estímulos que ainda poderiam existir nesse sentido parecem pertencer ao passado. As escolas transformaram-se, de há dois anos para cá, numa balbúrdia constante e num verdadeiro pesadelo burocrático em que ninguém parece entender-se. E, com muita tristeza minha, vejo os livros de filosofia que todas as semanas encomendo na Amazon ou outras livrarias acumular-se sem quase ter tempo para os folhear. Preparar aulas decentemente é algo que também deixei de fazer, caso contrário nem sequer vida familiar poderia ter. Não fosse o caso de os alunos estudarem por um manual que conheço de cor – porque sou um dos seus autores – e as aulas seriam um completo improviso. Comparar o que se tem passado nas escolas nos últimos dois anos com a barafunda gerada com o atraso da colocação de professores no tempo do ministro David Justino é como comparar um episódio infeliz com a própria infelicidade. E o ministro David Justino caiu por causa disso.

Creio poder dizer, sem qualquer exagero nem arrogância, que conheço melhor do que a senhora ministra o que se passa nas escolas, pois há 25 anos que passo a maior parte da minha vida nelas. Ora, nunca, mas mesmo nunca, houve tanta confusão e um ambiente tão pouco adequado ao ensino e à aprendizagem como o que se verifica actualmente.

Perguntar-se-á: o que ando então a fazer o tempo todo para deixar de preparar as minhas aulas como deve ser? A resposta poderia ser dada até pelo meu filho, apesar de ainda ser criança: além das aulas, passo os dias em reuniões intermináveis para entender o sentido do terrorismo legislativo com que se tolhem e intimidam os professores. Na verdade são muito mais as horas que tenho gasto a reunir por causa da avaliação do que com aulas. E o pior ainda nem sequer chegou. Como avaliador de oito colegas, terei de inventar mais 36 horas para assistir a aulas suas, além das reuniões preparatórias que tenho de fazer com cada um deles e dos quilos de papelada para preencher. De resto, na minha escola os professores irão passar o ano a assistir às aulas uns dos outros, pois somos 165 professores, o que dá cerca de 500 aulas assistidas por ano. Além disso, terei de preparar tudo para o meu avaliador – um colega de Economia que não tem culpa de nada e que fará certamente o seu melhor – poder assistir às minhas aulas de Filosofia.

Que o novo modelo de avaliação é inútil e ineficaz já o provou definitivamente, sem o querer, a senhora ministra. Diz ela repetidamente que esta avaliação é absolutamente necessária para a qualidade do ensino e para a melhoria dos resultados. Porém, anunciou com grande pompa ao país que os resultados melhoraram no último ano, o que acabou por ser reforçado com a divulgação dos resultados dos exames nacionais. Só que esta apregoada melhoria da qualidade e dos resultados verificou-se ainda antes de o modelo de avaliação produzir qualquer efeito. Logo, fica provado que a avaliação não é uma condição necessária para a melhoria da qualidade e dos resultados. O que leva então a ministra a dizer que a avaliação é absolutamente necessária?

Os responsáveis pelo actual ministério da educação parecem, talvez inconscientemente, querer pôr em prática o cenário tenebroso descrito por George Orwell em "Mil Novecentos e Oitenta e Quatro", em que a catadupa de despachos, decretos regulamentares, documentos orientadores, ordens de serviço, instruções superiores, recomendações, etc., frequentemente incoerentes – vale a pena dizer que acumulo em casa mais de mil fotocópias sobre avaliação, que me foram entregues na escola –, são a tradução quase literal do "Big Brother is watching you" da 5 de Outubro. A obsessão do ministério por controlar tudo e todos até ao mais pequeno detalhe está bem patente no modelo de fichas de avaliação que impõe às escolas e aos professores (parece que a ideia é a de que, entre tanta coisa pedagogicamente inane, sempre há-de haver uns quantos aspectos em que o avaliado vai falhar, de modo a não atrapalhar as escassas cotas disponíveis para progressão na carreira). E o mais irónico é que, quando se encontram incoerências e impasses nas instruções oriundas do ministério, a ministra deixa o problema para as próprias escolas com o argumento de que lhes quer dar autonomia na construção dos seus instrumentos de avaliação. Não é, pois, surpreendente que os professores se sintam desorientados, cansados, chantageados e até insultados. Isso acaba naturalmente por se reflectir na sua prática lectiva e os alunos notam bem a diferença quando o professor dá as aulas cansado.

Mas o pior de tudo é que o modelo de avaliação fabricado na 5 de Outubro não vai permitir distinguir os bons dos maus professores, ao contrário do que a senhora ministra alega. Talvez seja até pior do que a completa ausência de avaliação, premiando arbitrariamente alguns dos maus e castigando cegamente muitos dos bons. Se assim não fosse, que razões teriam os bons professores que desfilaram na manifestação de sábado para lá estarem? Ou será que os mais de cem mil são todos maus ou simplesmente estúpidos? Os professores sentem-se compreensivelmente ameaçados porque o modelo, além de burocrático, como convém ao Big Brother, obedece a uma espécie de pensamento único pedagógico: há um dogma pedagógico subjacente a que todos têm de aderir, tal como se emanasse do Ministério da Verdade orwelliano. Esse dogma é o da pedagogia do eduquês: são os resultados a qualquer preço, é a inovação a martelo, são as “estratégias de ensino-aprendizagem” como se o professor fosse o aprendiz (também o é, mas noutro sentido). Enfim, é a avaliação do portfólio e dossiê do professor para ver se ele tem o seu caderno diário em ordem, infantilizando uma actividade em que, pelo contrário, se exige autonomia e auto-confiança.

De resto, não é preciso muita atenção para ser confrontado com essa novilíngua do eduquês que, de há muitos anos para cá, tem caracterizado o Ministério da Verdade. Só que agora passou a ter uma força imparável, pois vai ser a destreza no uso dessa novilíngua a determinar se o professor é dos bons ou dos maus. Esta é, sem dúvida, a avaliação do pior eduquês em todo o seu esplendor. É um enorme passo para a asfixia intelectual dos professores e para a sua menoridade profissional. E é a negação da desejável diversidade pedagógica, transformando os professores em meros instrumentos de uma cadeia de produção em série e impedindo os alunos de se enriquecer no contacto com diferentes estilos e metodologias.

Mas o que realmente importa no desempenho do professor é, respeitando os alunos e os seus direitos, ensinar-lhes e ajudá-los a aprender o que é suposto aprenderem, recorrendo às concepções pedagógicas que muito bem se entender. É relativamente fácil apurar se o professor soube realmente ensinar e se os alunos conseguiram realmente aprender, independentemente da metodologia usada e das concepções pedagógicas em jogo, desde que os seus alunos realizem no final do percurso exames bem concebidos. E se se ponderarem os resultados dos exames comparando-os com a média de cada disciplina nas respectivas escolas, estamos muito próximos de um sistema de avaliação muito mais justo, simples, eficaz e dignificante para todos. Claro que para isso era preciso haver mais exames, além de melhores programas e de mais formação de professores, coisas que não parecem interessar minimamente a senhora ministra.

Assim, tudo indica que quando a senhora ministra afirma totalitariamente que ou se aplica o seu modelo ou não há outro, só pode estar a fazer chantagem, o termo que utiliza para descrever o comportamento dos sindicatos junto dos professores, como se os professores fossem idiotas. A verdade é que neste momento já não são os sindicatos a comandar os professores, mas os professores a empurrar os sindicatos, de tal modo que os próprios sindicatos já não estão em condições de cumprir o acordo assinado há meses com o ministério. De nada serve, portanto, ao primeiro-ministro apontar o dedo ao incumprimento dos sindicatos. Se estes tivessem representado devidamente os professores, nunca teriam de voltar agora atrás com a palavra. Por isso, não vale a pena recorrer a fantasias e negar uma realidade muito crua: a insistência do governo no actual modelo está a degradar como nunca o sistema educativo nacional e a pôr em causa o normal funcionamento das escolas. E esta ministra ficará seguramente na história como a maior desgraça que se abateu nos últimos tempos sobre a educação em Portugal. Isso só ainda não é mais notório porque os efeitos das políticas educativas só se tornam evidentes passados vários anos. Por isso é arrepiante ver a senhora ministra insistir – contra tudo e contra todos os que, em Portugal, já alguma vez revelaram interesse pelas questões da educação – numa teimosia própria de mentes obstinadas e dogmáticas. E é também por isso um imperativo de justiça desobedecer a esta lei arbitrária e injusta, sobre uma questão de tão grande importância. Chama-se a isto desobediência civil e foi isso que fizeram em diferentes circunstâncias Gandi, Luther King, Bertrand Russell e muitas das referências cívicas e culturais do nosso mundo. É ilegítimo não cumprir a lei, diz a senhora ministra sem se aperceber que está a ser redundante. Pois é, é ilegítimo não obedecer à senhora ministra, pois foi ela que fez a lei. Mas terá mesmo de ser.

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terça-feira, 10 de junho de 2008

Afinal o nosso Ministério da Educação é profético, sábio e vanguardista

Aprovação de directiva comunitária
Ministros europeus chegam a acordo para prolongar semana de trabalho até às 65 horas
10.06.2008 - 11h25

epois de quatro anos de negociações, os ministros europeus aprovaram hoje a Directiva do Tempo de Trabalho, chegando a acordo sobre a possibilidade de prolongar a semana de trabalho das actuais 48 horas até às 65 horas, se assim o entenderem o funcionário e a empresa. O documento ainda tem de ser votado no Parlamento Europeu.

A directiva, cuja aprovação ficou marcada pela abstenção de cinco países, fixa a semana de trabalho na União Europeia num máximo de 48 horas. Em Portugal vigora um máximo de 40 horas. No entanto, é permitido que este máximo possa ser alargado até às 65 horas.

Este documento não abrange os contratos com menos de dez semanas de duração.

A Comissão Europeia já saudou o acordo político. “Este é um grande passo em frente para os trabalhadores europeus e reforça o diálogo social. Mostra, mais uma vez, que a flexisegurança pode ser posta em prática”, comentou o comissário europeu para o Emprego, Vladimir Spidla.


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domingo, 8 de junho de 2008

É curioso - ou talvez não?!?

Interessante peça no Público de hoje sobre a implementação do Estatuto do Aluno (sem link permanente). Por um lado a constatação óbvia que a nova legislação não resolve nada de essencial quanto ao absentismo; por outro que cada escola deve, se a autonomia é para levar a sério, procurar os seus mecanismos específicos para lidar com a falta de assiduidade dos alunos; por fim que o Conselho de Escolas vai estudar a situação. Só não fica bem claro com que objectivos: se para conhecimento das soluções encontradas, se para fazer recomendações.

Como apreciação, apenas acrescentaria que se a retórica da autonomia é para concretizar, então ninguém se deve queixar muito de - apesar do espartilho legislativo - existirem escolas como aquela não claramente identificada na notícia, que pura e simplesmente deixou de aplicar este ano a medida de marcação de faltas.


in Blog A Educação do meu Umbigo, post de Paulo Guinote