segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

As contas da avaliação em tempo de trabalho

[Carta de um colega, retirada de saladosprofessores.com]





Colegas, vamos fazer contas. Corremos o risco de cair numa armadilha mortífera. São quatro categorias para avaliar (isto apenas para os professores que não sejam também avaliadores, senão são cinco):


- planificação aulas,


- execução,


- relação pedagógica,


- avaliação dos alunos.


Cada uma das categorias tem 5 (cinco) itens para avaliar. O que quer dizer que são 20 itens.


Em cada item é necessário:

- observar,

- reunir elementos de prova,

- enumerar,- calcular percentagens,

- ponderar entre 3 e 4, 5 e 6, 7 e 8, p. exemplo, e decidir,

- atribuir um valor na escala de 1 a 10 e registá-lo;

- depois converter esse valor para a escala de 1 a 4 e registá-lo na ficha do Ministério. Se, para cada item, forem precisos 10 minutos, em média, serão necessários 200 minutos para a avaliação de 1 professor. 200 Minutos significam 3 horas e 20 minutos.


Note-se que cada avaliador tem que repetir o processo por cada aula assistida nalguns aspectos, por cada ano no caso dos contratados, imaginem o tempo que será necessário para avaliar 1 professor ao fim de 2 anos? Não serão 3h e 20 minutos, mas 6 horas e 40 minutos. Ou seja, é necessário um dia de trabalho para cada avaliação.


Se somarmos as aulas assistidas: três blocos por ano teremos mais 4 horas e 30m por ano o que é igual, ao fim de 2 anos, a 9 horas o que dá um total de 15,5 h para cada avaliação de cada professor.


Se cada avaliador tiver 10 professores a avaliar, 77,5 h, por ano, e 155 h em 2 anos, fora as reuniões e entrevistas! Não esquecer as obrigações como professor com o seu horário normal. Se tiver 20 professores, serão 310 horas ao fim de 2 anos e 155 h por ano, etc.


Podem dizer que os itens se preenchem durante a aula assistida. É um sofisma. Temos que ter em conta que a grande maioria dos itens não pode ser preenchida durante a aula assistida como observação e avaliação dos planos de aula, número de avaliações, seu rigor, auto-avaliação dos alunos, valorização do progresso dos alunos, etc., etc.


É necessário recolher todos estes meios de prova, arquivá-los e, depois, analisá-los e avaliá-los com as operações acima descritas, o que exige muito tempo.


Isto é exigir o impossível e depois, com ou s/ intenção de que por trás disto está uma medonha artimanha de empurrar os professores mais velhos e mais caros, os titulares, para a reforma antecipada e penalizada, não deixa de ser indecente o que nos pretendem fazer e, inutilmente, como é fácil demonstrar! E substitui-los por professores novos muito mais baratos e sem redução horária? Não é intencional! Mas quem ganha? Ganha o Estado (ou aqueles que se apropriaram, legitimamente, do Estado em proveito próprio?!).


Quem perde? O país real e os professores.


Sinto-me indignado porque me valorizei cientificamente (mestrado e doutoramento), às minhas custas e com um esforço inenarrável, sem prejuízo das aulas e dos alunos, bem pelo contrário (o enriquecimento do prof. reverte a favor dos alunos) o que me deixa perplexo quando me dizem que "não quero ser avaliado", para ser chutado desta maneira, para a reforma, com o chicote do trabalho burocrático impossível! Isto é que é uma boa gestão de recursos humanos, pelo nosso ministério?


Zeferino Lopes,


(Professor de Filosofia, Esc. Sec. Penafiel, 24 de Fevereiro de 2008).

3 comentários:

A.N.(A.) disse...

Estamos a divulgar.

José Luiz Sarmento disse...

Todos os professores se devem recusar a prestar um número de horas de trabalho anual superior ao que resulta da semana de 35 horas, deduzidas as férias legais e os feriados.
Esta recusa deve estar contemplada desde já na ficha de objectivos individuais, na qual devem estar mencionadas TODAS as actividades do professor com os respectivos tempos de execução.

Amélia disse...

Sugiro que enviem este post ao Marcelo Rebelo de Sousa, para ele voltar à carga.

No meu blogue(comentários) e noutros, coloquei a seguinte
Notícia : Éramos «só» 700 e tivemos de nos deslocar do auditório previsto por não cabermos lá até ao Teatro da cidade - em passeata à chuva. A sessão correu, a meu ver, bem e no registo justo - e os professores estiveram, assim, unidos em defesa da escola pública que desejam que seja a escola da cidadania e da democracia a fazer-se diariamente.De certo modo estas movimentações espontâneas constituem um «Venho dizer-vos que não tenho medo/a verdade é mais forte que as algemas/venho dizer-vos que não há degredo/quando se traz a alma cheia de poemas» (Manuel Alegre)