quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

O Massacre da Educação

"Um sector gritante de extracção de mais valias de biopoder é o da Educação. Pela natureza do trabalho do professor (material e imaterial), é sempre possível fazer crer em que «modernizar» é igual a «gerir bem» igual a «ensinar bem». O que permite retirar o máximo da «modernização em mais valias materiais e imateriais.

Por exemplo, a avaliação dos professores deve ser feita, mas os parâmetros impossíveis impostos pelo ministério, as aberrações nas exigências da assiduidade dos docentes, a quase impossibilidade de obter a nota máxima, as dificuldades extremas em subir na carreira, os estatuto dos avaliadores incompetentes na matéria avaliada, etc - estão a empurrar os professores para o abandono da profissão e para a reforma antecipada. A Educação sofre um massacre que provoca a fuga dos professores: não é isto um dos objectivos da «contenção», a redução do número dos docentes e dos custos da educação? A racionalidade necessária da avaliação esconde a outra racionalidade imposta pelo défice.

Nisto tudo, uma questão me intriga: porquê tanto ódio, tanto desprezo, tanto ressentimento contra a figura do professor?"

José Gil, Visão, 21 de Fevereiro de 2008, pp. 28

1 comentário:

Jorge Martins disse...

O texto de um grande filósofo e grande pensador, a colocar "o dedo na ferida". A par com outro excelente texto da Ana Benavente, no "Público" de ontém, dia 21.
No fundo, ambos revelam aquilo que todos sabemos: a Milú & Cª querem transformar a Escola Pública numa estrutura do tipo empresarial. Para isso, criam uma organização piramidal, onde o director é o vértice, que vai colocando os seus "afilhados" nas estruturas intermédias, reduzidas a meras "correias de transmissão" da direcção. Aos restantes professores nada mais resta que obedecer às ordens do "chefe", sob pena de retaliações, em especial ao nível da avaliação.
Ao mesmo tempo, as sinistras criaturas vão tornando a vida insuportável aos professores mais antigos e experientes, com vínculo forte, capacidade reivindicativa e maiores ordenados de forma a que estes se reformem ou abandonem a profissão. Em breve, serão substituídos por colegas contratados, com vínculos precários, sem direitos e a ganhar pouco. Assim, o seu poder reivindicativo será praticamente nulo e serão obrigados a aceitar todos os ditames do ME e do director.
A prazo, a qualidade da Escola Pública tenderá a degradar-se e os filhos das classes médias farão o que já hoje fazem os das altas: optarão pelos privados. Então, ao ensino público restará o papel supletivo e assistencial de prover os serviços mínimos de educação aos pobres, imigrantes e outros deserdados da sociedade. Reservado a jovens problemáticos, não só se degradará ainda mais, como será socialmente desqualificado.
Debaixo de palavras da "novilíngua" tecnoeconomicista como "mérito", "competência", "eficiência", "racionalização", é este o projecto escondido do poder, em Portugal e noutros países da Europa.
O nóvel e execrável ECD, o novo modelo de avaliação e o diploma sobre a gestão são os meios usados para atingir esse fim.
É URGENTE PARÁ-LOS ENQUANTO É TEMPO. HÁ QUE NÃO TER MEDO. É NECESSÁRIO ENDURECER A NOSSA LUTA!
CORAGEM, COLEGAS.