domingo, 2 de março de 2008

A Dúvida De Uma Manhã de Nevoeiro

Do Blog A Educação do meu Umbigo publicamos o seguinte post de Paulo Guinote:

Os críticos dos professores acham que estamos contra este modelo de avaliação porque estaremos sempre contra qualquer modelo de avaliação. Que pegamos em detalhes para recusar, recusar, sem nunca defender nada de alternativo em concreto.

Mas talvez fosse bom - e quanto a alternativas já as aflorei em posts há algum tempo - que esses críticos tentassem reflectir sobre alguns aspectos de uma avaliação que parece querer pretender manter os professores em permanente estágio ou ano probatório.

Digam-me, por favor, qual são as funções no sector privado que implicam apresentar todos os anos planificações de trabalho hora a hora como nos querem pedir a nós?

Só para eu entender se não serão os críticos a estar mal habituados!

Porque aos professores pede-se que façam uma planificação, aula a aula, de todo o seu trabalho anual.

No meu caso são cerca de 700 planificações de três disciplinas e duas áreas curriculares não disciplinares distintas.

Uma coisa é termos planos de trabalho, uma agenda do que se vai fazer num dia, numa semana, num mês. Esse é o nosso horário de trabalho, que já temos com as aulas que damos todos os dias, durante a semana.

Outra é querer para todas elas um plano detalhado de execução, como se tudo fosse automatizado: às 10 horas entramos, às 10.05 fazemos o sumário; às 10.10 abrimos o manual e começamos a abordar a vida na Idade Média; às 10.20 lemos o documento 2 e às 10.30 analisamos a figura 27; às 35 os alunos colocam dúvidas; às 10.40, o professor recapitula a matéria e questiona os alunos. Tudo muito direitinho, tudo irreal, tudo absolutamente contrário a um ensino dinâmico e interactivo, atento ao que se passa a cada momento na aula.

Isto para todo um ano de trabalho, todos os anos.

  • Gostava de saber se um médico apresenta o plano do conteúdo das suas consultas, consulta a consulta;
  • Se um juiz ou advogado planificam assim a sua actividade diária;
  • Se um jornalista apresenta diariamente um plano detalhado do que fará, hora a hora.

Uma observação quase recorrente nesses críticos é que os professores nunca levantaram a voz contra o sistema anterior. Só posso falar por mim. Não levantei porque nunca me achei excelente; mas levantei contra forma de trabalhar como a que agora é proposta. E fi-lo não à mesa de um café mas durante a minha profissionalização, em trabalho entregue para a respectiva avaliação. O qual até foi bem avaliado. Com classificação que até ronda o excelente.

Porque o meu modelo de ensino não é a produção em série de autómatos, sejam eles os docentes ou os alunos.

5 comentários:

Anónimo disse...

Senhor Dr Paulo Guinote
Fui professor durante 30 e tal anos e várias vezes presidente de CD e CE. Fui o presidente após 250474, mais novo do País. O senhor sabe que existem vários tipos de professores.Aquele que no dia da apresentação faz a primeira pergunta: Qual é o meu dia livre?
Depois diz: era bom à sexta ou à segunda. Diz ainda não DT pois não?
E o presidente vai ouvindo até que lhe diz: o sehor professor vem para trabalhar ou para passar tempo a entreter os alunos?
não existe resposta.
Sabe, deixei o sistema por reforma antecipada, perdendo mensalmente mais de 700 euros, graças a despacho da Manuela F. Leite, a bruxa que chorava quando tinha de tomar alguma decisão. Estou naturalmente do lado dos professores, mas não daqueles que instrumentalizados, vão para as marchas. Os mádicos fazem marchas? não Os juizes fazem marchas? não Os engenheiros fazem marchas? não.Então a classe com mais classe faz marchas porquê?
Mandem às malvas as fichas de avaliação, e não tenham medo como de diz por todo o lado. Parem as escolas dentro das escolas e vão ver que tudo muda.
Cumprimentos
Helder Soares

Fernando Martins disse...

Caro ex-colega:

"Então a classe com mais classe faz marchas porquê?"

Porque, infelizmente, chegámos a um ponto que já não pudemos fazer uma greve que seja produtiva em termos de resposta da população e dos dirigentes do ME...

A sua solução implica despedimento por justa causa, nos moldes em que se enquadra a nossa profissão actualmente.

PS - A minha mãe foi professora primária e reformou-se cedo, por causa de uma daquelas propostas magníficas dos anos oitenta - chegou a uma que recebia menos de metade das colegas reformadas com os menos de serviço. E, já agora, o Paulo Guinote que escreveu este texto publica as suas reflexões no Blog A Educação do meu Umbigo:
http://educar.wordpress.com/

J P G disse...

No dia da apresentação pergunta qual é o dia livre e solicita a 2ª ou a 6ª, talvez porque reside a centenas de quilómetros da escola e não tendo ajudas de custo... resta-lhe ir p'ra fora cá dentro!

Anónimo disse...

Eu por mim faria ainda mais marchas. Os meus filhos andam em escolas particulares e enquanto puder não sairão de lá.

Nunca ouvi um professor dizer que a sua classe tem enormes responsabilidades no estado em que se encontra a educação, por isso o que é que eu sei sobre este assunto que nem professor sou?

Venham mais marchas, metalurgicos nos anos 70, professores nesta década. É a proletarização a evoluir e a modificar-se.

Sobre a avaliação e sendo ela tão contestada e eu não sabendo também nada sobre o assunto só posso dizer:Parabéns sra. Ministra, que como diz um comentador, está a alterar o ministério dos professres para ministério da educação.

Anónimo disse...

Se não sabe nada, porque não se cala? Deveria saber pelo menos que quem definiu sempre a política educativa foram os Governos, Ministério da Educação e Assembleia da República. Ou mais alguém pode legislar neste país e nós não sabemos? Não se apercebeu das críticas (indirtectas) do Secretário de Estado Valter Lemos a um anterior Ministro da Educação que por acaso é Ministro deste Governo? E o que é que interessa para o assunto onde tem os filhos a estudar ou o seu estatuto material? ITO